Jason, Gallahad e outros mitos
sábado, 28 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
JASON E A SACERDOTISA
Eu, Jason, como ego relator que sou e usando dos meus direitos individuais, conferidos pelo meu nome, de existir entre os meses de Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro e sabe-se lá o que acontece comigo quando chega dezembro, venho contar essa segunda parte da história dela, partes que me couberam saber até agora.
É a segunda vez que a vejo. Ela está lá. Parada à beira do penhasco, olhando fixamente algum ponto no mar embaixo. Às suas costas, o pequeno templo em ruínas esquecidas. Quem vai até lá? Ninguém mais vai até lá. Um templo e uma sacerdotisa devotados a Eros, o deus grego do Amor.
É a segunda vez que a vejo. Ela está lá. Parada à beira do penhasco, olhando fixamente algum ponto no mar embaixo. Às suas costas, o pequeno templo em ruínas esquecidas. Quem vai até lá? Ninguém mais vai até lá. Um templo e uma sacerdotisa devotados a Eros, o deus grego do Amor.
Uma sacerdotisa é alguém devotada a alguma coisa. Ser devotada é ser dedicada. Devoção é uma entrega sem limites, sem fim, até a morte ou até além dela. Devoção é doação e doação é Amor. Amor é o nome de Eros.
Porque ela continua ali? Acompanho seu olhar e vejo que algo está sendo içado do mar. Uma parte de uma estátua, uma grande escultura de pedra, a cabeça de um dragão. Mesmo tendo todo o tempo grego se passado, mesmo tendo se perdido sua função como sacerdotisa, ela permaneu ali, naquele mesmo local, marcando como um farol o ponto exato onde um dia, muito anterior, a cabeça do dragão tombara, derrotada numa guerra de titãs entre forças do céu e da terra. Uma estátua de pedra ou o que restou dela. Guardou para além dos milênios, com devoção suprema, além da vida e da morte, mantendo-se como um ponto de luz quase invisível, um ponto de consciência da existência daquilo que, há muito, todos esqueceram. Guardou o lugar como se velasse o sono de um filho adormecido. Ou de um amor imenso. Ele está sendo retirado do mar por forças que vão além dela. Eu soube que já tentara, mas que não chegara nem perto da profundidade onde ele estava enterrado. Desta vez, chegara até lá, mas não pode levantá-lo sozinha, então continuou esperando até que reforços lhe chegaram. Eu lhe pergunto o que significa. Ela não sabe dizer. Esqueceu-se também. Sente-se livre, aliviada, pensa que agora ele seguirá seu caminho e ela, finalmente, voltará para casa. Esse pensamento a desperta e se pergunta: que casa? que nome? que vida? Ela não sabe quem poderia ter sido antes de ter se fixado ali. Sabe, sim, que era a mulher de um homem que ao ser derrotado pelos deuses foi punido com o aprisionamento dentro da pedra. Foi derrotado porque cedeu à ira, o maior de todos os dragões e com essa forma foi petrificado. Por uma eternidade. Ela aguardou até que a eternidade passasse, que o tempo de Deus chegasse e ele pudesse ser libertado novamente. Ela diz que viu seus olhos brilharem como pedras de rubi. Muitas vezes, na escuridão, viu aqueles mesmos olhos, fixando-a, irônicos e cruéis. Podia ouvir o riso falso e mau, o som da sua voz a amaldiçoá-la.
Sei que tentou seguir adiante e até encontrou a passagem para um outro universo onde uma criança lhe sorri e logo atrás, um homem vem ao seu encontro. Uma família. Mas, ela pensa que não pode permanecer, que talvez deva voltar e seguir o destino do dragão, descobrir como libertá-lo da pedra. Mas, não. Não lhe cabe. Se os deuses ali o colocaram, somente aos deuses cabe libertá-lo. Somente a ele mesmo cabe, agora, libertar-se. Ela está em casa. Onde ele já estava.
Sei que tentou seguir adiante e até encontrou a passagem para um outro universo onde uma criança lhe sorri e logo atrás, um homem vem ao seu encontro. Uma família. Mas, ela pensa que não pode permanecer, que talvez deva voltar e seguir o destino do dragão, descobrir como libertá-lo da pedra. Mas, não. Não lhe cabe. Se os deuses ali o colocaram, somente aos deuses cabe libertá-lo. Somente a ele mesmo cabe, agora, libertar-se. Ela está em casa. Onde ele já estava.
A SACERDOTISA
Uma mulher num templo em ruínas.
Uma clareira no meio das montanhas.
Ela não sabe mais porque está ali.
Esqueceu-se de si mesma.
Só sabe que não pode sair.
Pelo vento, pressente a chegada de vida. Uma multidão, um exército, elefantes.
Atravessara as montanhas com seu exército de elefantes.
Acamparam na clareira e as ruínas do pequeno templo eram iluminadas pelas fogueiras.
Ele a viu. Por entre os restos de colunas.
Uma imagem de mulher, irreal, fugidia, imaterial, azul para além do dourado.
Levantou-se e, de olhar fixo, aproximou-se.
Ao subir os degraus, não mais a viu.
De manhã, seguiu com o exército e os elefantes para o destino: Roma.
Ela estava lá.
Habitava aquele templo, deusa e sacerdotisa, esquecida de si há séculos.
Houvera um tempo em que sua existência era cultuada.
Homens a buscavam e viam.
Sem nome, sem rosto...
Um grande hausto de satisfação e lembrança.
Como fantasma vivera nesse lugar, presa sem ter aonde ir.
O olhar de um homem que viu além das ruínas a traz de volta do esquecimento, da morte.
1999, LeonoraG.
Uma clareira no meio das montanhas.
Ela não sabe mais porque está ali.
Esqueceu-se de si mesma.
Só sabe que não pode sair.
Pelo vento, pressente a chegada de vida. Uma multidão, um exército, elefantes.
Atravessara as montanhas com seu exército de elefantes.
Acamparam na clareira e as ruínas do pequeno templo eram iluminadas pelas fogueiras.
Ele a viu. Por entre os restos de colunas.
Uma imagem de mulher, irreal, fugidia, imaterial, azul para além do dourado.
Levantou-se e, de olhar fixo, aproximou-se.
Ao subir os degraus, não mais a viu.
De manhã, seguiu com o exército e os elefantes para o destino: Roma.
Ela estava lá.
Habitava aquele templo, deusa e sacerdotisa, esquecida de si há séculos.
Houvera um tempo em que sua existência era cultuada.
Homens a buscavam e viam.
Sem nome, sem rosto...
Um grande hausto de satisfação e lembrança.
Como fantasma vivera nesse lugar, presa sem ter aonde ir.
O olhar de um homem que viu além das ruínas a traz de volta do esquecimento, da morte.
1999, LeonoraG.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
O FUNERAL
Chego à pequena aldeia, para conversar com a velha. Confesso que quero saber como ela está, pois estou ansiosa pela sua morte. Há promessas não reveladas para além da morte dela.
É um dia quente e poeirento em algum lugar no alto das montanhas. Um lugarejo com meia dúzia de casas e uma igrejinha. Não há Casas Pernambucanas.
Pela única rua vem um cortejo fúnebre.
Típico. Dois homens, índios nativos, carregam nos ombros um comprido pedaço roliço de madeira de onde pende uma rede e nela, com certeza, está um morto.
Outros rostos, poucos, entre homens e mulheres, seguem atrás, consternados.
A princípio, pensei que fosse alguém deles, outro nativo.
Mas, eu sabia, na verdade, quem era.
Não fora sem motivo que me vira deslocada até ali.
Seguí-os até o pequeno cemitério e acompanhei o enterro.
Esperei que todos se fossem e só então pude despedir-me.
Na varanda da casa, sentada na cadeira de balanço, coloquei-me no lugar dela e pensei poder ver o mundo com os seus olhos. Com certeza me faria bem.
A vista era muito bonita, sem dúvida. Montanhas verdes ao longe. Até lá, pastos e plantações. Era bonita a fazenda, mas o calor, cheio de umidade e pressão do ar, fez-me sentir pesada e sonolenta. Cerrei os olhos ao excesso de luz.
Senti, então, a presença dela ao meu lado. Como se quisesse responder às minhas perguntas.
Sim, estava ali por causa das minhas perguntas.
Muitas vezes pensei em voltar, ela disse, mas nada havia fora daqui que realmente me convencesse a empreender o esforço de deixar este lugar.
Pensei que deveria voltar por não pertencer a este lugar, mas este lugar era o único que me pertencia. Pensei nas pessoas que falavam minha língua, acreditavam nas mesmas coisas, estudaram nos mesmos livros. E nada disso era verdadeiramente forte para me tirar daqui.
Eu não tinha mais perguntas.
Ela estava feliz.
É um dia quente e poeirento em algum lugar no alto das montanhas. Um lugarejo com meia dúzia de casas e uma igrejinha. Não há Casas Pernambucanas.
Pela única rua vem um cortejo fúnebre.
Típico. Dois homens, índios nativos, carregam nos ombros um comprido pedaço roliço de madeira de onde pende uma rede e nela, com certeza, está um morto.
Outros rostos, poucos, entre homens e mulheres, seguem atrás, consternados.
A princípio, pensei que fosse alguém deles, outro nativo.
Mas, eu sabia, na verdade, quem era.
Não fora sem motivo que me vira deslocada até ali.
Seguí-os até o pequeno cemitério e acompanhei o enterro.
Esperei que todos se fossem e só então pude despedir-me.
Na varanda da casa, sentada na cadeira de balanço, coloquei-me no lugar dela e pensei poder ver o mundo com os seus olhos. Com certeza me faria bem.
A vista era muito bonita, sem dúvida. Montanhas verdes ao longe. Até lá, pastos e plantações. Era bonita a fazenda, mas o calor, cheio de umidade e pressão do ar, fez-me sentir pesada e sonolenta. Cerrei os olhos ao excesso de luz.
Senti, então, a presença dela ao meu lado. Como se quisesse responder às minhas perguntas.
Sim, estava ali por causa das minhas perguntas.
Muitas vezes pensei em voltar, ela disse, mas nada havia fora daqui que realmente me convencesse a empreender o esforço de deixar este lugar.
Pensei que deveria voltar por não pertencer a este lugar, mas este lugar era o único que me pertencia. Pensei nas pessoas que falavam minha língua, acreditavam nas mesmas coisas, estudaram nos mesmos livros. E nada disso era verdadeiramente forte para me tirar daqui.
Eu não tinha mais perguntas.
Ela estava feliz.
domingo, 15 de agosto de 2010
KRISHNA E ARJUNA
No Bhagavad Gita, Arjuna tem que lutar para recuperar o poder sobre seu reino. O exército oponente é muitas vezes maior em número e muitos dos que são caros a Arjuna, como amigos, pai, irmãos, tios, estão nele. A luta de Arjuna é justa e por isso Krishna fica ao lado dele, mas não como soldado e sim, como condutor do carro de Arjuna. Arjuna está em conflito. Não quer lutar e matar aqueles que ama. E Krishna então lhe transfere ensinamentos.
Krishna é a divindade encarnada.
Arjuna é a mente humana.
Krishna conduz o carro.
O carro é o corpo de luz, o conjunto de ensinamentos, a sabedoria.
Krishna é a divindade encarnada.
Arjuna é a mente humana.
Krishna conduz o carro.
O carro é o corpo de luz, o conjunto de ensinamentos, a sabedoria.
Krishna estimula e conclama Arjuna à luta justa pelo poder do reino. Essa luta é pelo domínio da própria mente, dos próprios pensamentos e, por conseqüência, do próprio Ser. Por isso não há culpa em lutar e mesmo matar, inclusive aqueles a quem se dedica afeto ou respeito. A mente luminosa, sábia, focada no Ser, que está acima e antes de tudo, deve essa vitória ao Ser. Dessa forma, a sabedoria e a verdade podem ser vistas e vivenciadas por todos.
Há culpa no medo de vencer e na omissão, pois a mente estará permitindo que o que não corresponde à sabedoria impere no mundo. Ela estará se submetendo aos pensamentos dos outros, impuros na sua grande maioria e na outra parte, ignorantes do Ser.
Quanto a matar, Krishna deixa claro que esta vida é apenas uma vida e que o corpo é apenas um dos corpos. A responsabilidade com o Ser vem antes de tudo. E aqueles que focarem sua mente em Deus, o Ser, o Ser neles também focará sua mente e estes serão os bem amados.
Os ensinamentos de Krishna estão no Bhagavad Gita.
Os ensinamentos de Krishna estão no Bhagavad Gita.
http://www.culturabrasil.org/bhagavadgita.htm
sábado, 14 de agosto de 2010
JASON NAS PIRÂMIDES
Sim, vou te contar por onde andei neste tempo todo.
Sei que entrei um dia pela Esfinge, pretendendo chegar até a Grande Pirâmide por um suposto túnel subterrâneo.
Descendo algumas escadas, a tocha se apagou, a pilha acabou, e a escuridão se fez. Fiat Lux eu sei como se diz, mas Faça-se a escuridão não sei. Qualquer dia pode ser que procure. Toda pesquisa está tão fácil atualmente. E foi assim, no escuro, que comecei a tatear paredes e conforme fui me acostumando, comecei a enxergar pelas mãos. Paredes cobertas de inscrições em alto relevo.
Fui descendo e, de repente, me vi como uma mulher bem jovem, quase menina, numa aldeia maia, inca ou asteca. Sei que não são iguais, mas meu conhecimento não as diferencia. Só sei que os maias desapareceram do mundo subitamente sem deixar vestígios. Estranho...isso lembra-me algo como um carneiro metido a cavaleiro...O lado ruim da história é que eu estava sendo levada a um templo, como oferenda a um deus qualquer da prosperidade num desses rituais que pedem chuva e boa colheita. E essa história só teve lado ruim. Rapidamente estava dentro, trancada, no escuro. Que estranha coincidência...Dizem que não existem coincidências. Mas existem. Co-incidências no tempo, co-incidências no espaço e co-incidências de sentido (sabe-se lá o que isso significa pois ouvi isso agora, aqui, não prestei atenção se no ouvido direito ou no esquerdo. Acho que no do meio, e sobre isso contarei outra hora). De uma pirâmide pra outra, se bem que eu estava ainda na Esfinge, lá estava eu apalpando paredes. E descendo. E virando pra esquerda e outro lance para a direita e na quase escuridão total abriu-se um salão. No centro, uma forma mais escura que o escuro. À medida que me aproximava, fui percebendo a forma de uma aranha gigante. Depois de tanto tempo, até já esqueci o tamanho do medo, mas posso assegurar que foi grande. Acontece que, por obra e graça do destino, já havia muito estava morta. Aranhas teciam o destino de acordo com a mitologia grega. Quem puder que entenda o sentido. Passei por ela e segui adiante, buscando a luminosidade que vinha de longe. Sai daquele lugar, uma caverna, para a luz, em uma praia. Tento recuperar a sensação daquele momento, mas o que eu puder contar estará ainda muito longe do impacto que senti. Vou chamar de impacto do tempo. Havia pelo menos 10000 anos de diferença entre o local em que entrei e o local em que saí. Sei que ao afirmar isso, vou perder credibilidade acadêmica, mas quem realmente se importa? Aquela praia era Atlântida. E havia um homem, na praia, a quem eu tão naturalmente me dirigi, como se o tivesse visto no mesmo dia. Não tinha como não estar confusa. Conversamos sem falar. Eu soube que éramos um. Mas usamos nosso poder (seja lá qual fosse) em benefício próprio (não entrou em detalhes). E fomos punidos e nos separaram.
Não percebi como saí. Ou quanto tempo se passou. Sei que acordei um dia, atolada no poço de petróleo que existe embaixo da Grande Pirâmide. O petróleo me sugava como areia movediça. Eu deduzi que estava ali por ter fracassado em algum ponto, depois de muitas portinhas e estreitos corredores, rampas, labirintos. Um fracasso moral. Provavelmente deixei-me fascinar pela luxúria ou ganância, vibrações que emanam ali dentro como gases de pântano. Pegam qualquer desavisado. Mas, também não sei por que acaso do destino, enquanto estava ali devo ter feito alguma coisa ou pensado ou rezado ou compreendido que acionou um dispositivo, tipo elevador, que me levou sem escalas, diretamente à Câmara do Rei. Havia muita tralha por ali. Como um sótão ou porão de museu. Eu soube que deveria limpar tudo. E fui jogando fora e limpando e limpando. Ocorre-me que não sei pra onde foram todas aquelas coisas...Enfim, limpei e limpei. Até que só sobraram eu e o sarcófago. Foi assim meio assustador. Esquisito. Então me lembrei que o que acionou o dispositivo foi o fato de ter buscado compreender o Faraó e a Soberania, a capacidade de gerir o próprio destino e, ao entender que a Soberania está onde a Submissão está, a existência dos pares de opostos, e que o Faraó como Deus-soberano só era Faraó porque se submetia à Vontade Divina, plim, subi. Lá, na Câmara do Rei, o minúsculo buraquinho lá no ápice, pelo qual se vê as Plêiades, ou Três Marias, sabe-se lá o que os egípcios viam nelas, ia se abrindo, aumentando à medida em que eu me desfazia daquela tralha trimilenar. Perguntei: e agora? Nem precisaram me responder. Joguei fora o Faraó e aqui, no mundo chamado real, a escultura foi doada pra angariar fundos pra fazer cisterna no nordeste. Nem te conto essa. Voltando à faxina, olhei em volta e não tinha mais nada. As paredes já quase não existiam. Mas eles, os insistentes faladores, não estavam satisfeitos. Olhei em volta e soube que tinha que me livrar de mim. De todos os conceitos que tinha a meu respeito. De tudo o que eu pensava que os outros pensavam a meu respeito. De tudo o que pudesse significar Eu. Ah! Eu já estava ali mesmo...não tinha mais nada pra fazer....topei. E então as paredes desapareceram totalmente e o céu azul cheio de nuvens estava lá fora. Mas, olha, vou te contar....esse povo do céu não dá folga pros iniciados iniciantes....e ainda tinha o que liberar...Demorei pra entender. Havia ainda o chão sob os meus pés. E quando o apaguei, flutuei. E assim estava livre a minha mente pra saber que o chão pode ser o céu, que tudo pode estar de cabeça para baixo. Que o que chamamos vida pode ser a morte. Eu apenas sabia que não sabia mais nada.
Agora me ocorre ligar a isso um pensamento, uma pergunta. Quando enxergamos alguma coisa, a imagem que realmente vemos no fundo do olho é invertida podendo significar que o mundo, fora, o enxergado, está de cabeça para baixo, que os valores estão invertidos, que onde vemos um homem há, na verdade uma mulher, e que onde vemos uma mulher há, na verdade, um homem?
Sei que entrei um dia pela Esfinge, pretendendo chegar até a Grande Pirâmide por um suposto túnel subterrâneo.
Descendo algumas escadas, a tocha se apagou, a pilha acabou, e a escuridão se fez. Fiat Lux eu sei como se diz, mas Faça-se a escuridão não sei. Qualquer dia pode ser que procure. Toda pesquisa está tão fácil atualmente. E foi assim, no escuro, que comecei a tatear paredes e conforme fui me acostumando, comecei a enxergar pelas mãos. Paredes cobertas de inscrições em alto relevo.
Fui descendo e, de repente, me vi como uma mulher bem jovem, quase menina, numa aldeia maia, inca ou asteca. Sei que não são iguais, mas meu conhecimento não as diferencia. Só sei que os maias desapareceram do mundo subitamente sem deixar vestígios. Estranho...isso lembra-me algo como um carneiro metido a cavaleiro...O lado ruim da história é que eu estava sendo levada a um templo, como oferenda a um deus qualquer da prosperidade num desses rituais que pedem chuva e boa colheita. E essa história só teve lado ruim. Rapidamente estava dentro, trancada, no escuro. Que estranha coincidência...Dizem que não existem coincidências. Mas existem. Co-incidências no tempo, co-incidências no espaço e co-incidências de sentido (sabe-se lá o que isso significa pois ouvi isso agora, aqui, não prestei atenção se no ouvido direito ou no esquerdo. Acho que no do meio, e sobre isso contarei outra hora). De uma pirâmide pra outra, se bem que eu estava ainda na Esfinge, lá estava eu apalpando paredes. E descendo. E virando pra esquerda e outro lance para a direita e na quase escuridão total abriu-se um salão. No centro, uma forma mais escura que o escuro. À medida que me aproximava, fui percebendo a forma de uma aranha gigante. Depois de tanto tempo, até já esqueci o tamanho do medo, mas posso assegurar que foi grande. Acontece que, por obra e graça do destino, já havia muito estava morta. Aranhas teciam o destino de acordo com a mitologia grega. Quem puder que entenda o sentido. Passei por ela e segui adiante, buscando a luminosidade que vinha de longe. Sai daquele lugar, uma caverna, para a luz, em uma praia. Tento recuperar a sensação daquele momento, mas o que eu puder contar estará ainda muito longe do impacto que senti. Vou chamar de impacto do tempo. Havia pelo menos 10000 anos de diferença entre o local em que entrei e o local em que saí. Sei que ao afirmar isso, vou perder credibilidade acadêmica, mas quem realmente se importa? Aquela praia era Atlântida. E havia um homem, na praia, a quem eu tão naturalmente me dirigi, como se o tivesse visto no mesmo dia. Não tinha como não estar confusa. Conversamos sem falar. Eu soube que éramos um. Mas usamos nosso poder (seja lá qual fosse) em benefício próprio (não entrou em detalhes). E fomos punidos e nos separaram.
Não percebi como saí. Ou quanto tempo se passou. Sei que acordei um dia, atolada no poço de petróleo que existe embaixo da Grande Pirâmide. O petróleo me sugava como areia movediça. Eu deduzi que estava ali por ter fracassado em algum ponto, depois de muitas portinhas e estreitos corredores, rampas, labirintos. Um fracasso moral. Provavelmente deixei-me fascinar pela luxúria ou ganância, vibrações que emanam ali dentro como gases de pântano. Pegam qualquer desavisado. Mas, também não sei por que acaso do destino, enquanto estava ali devo ter feito alguma coisa ou pensado ou rezado ou compreendido que acionou um dispositivo, tipo elevador, que me levou sem escalas, diretamente à Câmara do Rei. Havia muita tralha por ali. Como um sótão ou porão de museu. Eu soube que deveria limpar tudo. E fui jogando fora e limpando e limpando. Ocorre-me que não sei pra onde foram todas aquelas coisas...Enfim, limpei e limpei. Até que só sobraram eu e o sarcófago. Foi assim meio assustador. Esquisito. Então me lembrei que o que acionou o dispositivo foi o fato de ter buscado compreender o Faraó e a Soberania, a capacidade de gerir o próprio destino e, ao entender que a Soberania está onde a Submissão está, a existência dos pares de opostos, e que o Faraó como Deus-soberano só era Faraó porque se submetia à Vontade Divina, plim, subi. Lá, na Câmara do Rei, o minúsculo buraquinho lá no ápice, pelo qual se vê as Plêiades, ou Três Marias, sabe-se lá o que os egípcios viam nelas, ia se abrindo, aumentando à medida em que eu me desfazia daquela tralha trimilenar. Perguntei: e agora? Nem precisaram me responder. Joguei fora o Faraó e aqui, no mundo chamado real, a escultura foi doada pra angariar fundos pra fazer cisterna no nordeste. Nem te conto essa. Voltando à faxina, olhei em volta e não tinha mais nada. As paredes já quase não existiam. Mas eles, os insistentes faladores, não estavam satisfeitos. Olhei em volta e soube que tinha que me livrar de mim. De todos os conceitos que tinha a meu respeito. De tudo o que eu pensava que os outros pensavam a meu respeito. De tudo o que pudesse significar Eu. Ah! Eu já estava ali mesmo...não tinha mais nada pra fazer....topei. E então as paredes desapareceram totalmente e o céu azul cheio de nuvens estava lá fora. Mas, olha, vou te contar....esse povo do céu não dá folga pros iniciados iniciantes....e ainda tinha o que liberar...Demorei pra entender. Havia ainda o chão sob os meus pés. E quando o apaguei, flutuei. E assim estava livre a minha mente pra saber que o chão pode ser o céu, que tudo pode estar de cabeça para baixo. Que o que chamamos vida pode ser a morte. Eu apenas sabia que não sabia mais nada.
Agora me ocorre ligar a isso um pensamento, uma pergunta. Quando enxergamos alguma coisa, a imagem que realmente vemos no fundo do olho é invertida podendo significar que o mundo, fora, o enxergado, está de cabeça para baixo, que os valores estão invertidos, que onde vemos um homem há, na verdade uma mulher, e que onde vemos uma mulher há, na verdade, um homem?
DUAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE:
DUAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE:
O PENSAMENTO OCIDENTAL E O PENSAMENTO ORIENTAL
INTRODUÇÃO
Este artigo pretende expor, esclarecer e analisar as formas de pensamento ocidental e oriental baseando-se no prefácio que C.G.Jung escreveu à tradução feita por Richard Wilhelm ao I Ching-O Livro das Mutações.
Acreditamos que seu estudo seja útil para mostrar que existem formas diversas de interpretação da realidade e que sua integração pode ampliar a habilidade humana de compreensão de sua própria vida e consequente solução de seus problemas.
O PENSAMENTO OCIDENTAL
Essa forma de pensar é, para nós, ocidentais, bastante familiar. Nossa ciência, ou nossa forma de conhecer o mundo e interpretá-lo baseia-se no principio da causalidade, ou seja, para todo efeito ou fenômeno existe uma causa prévia.
Jung (I CHING, p.17) diz: “A causalidade enquanto uma verdade meramente estatistica não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros.”
A mente ocidental, nossa racionalidade, diante de um objeto de conhecimento, tende a fragmentar, examinar, pesar, selecionar, classificar e isolar os elementos componentes buscando um “resultado claramente definido de um concordante processo causal em cadeia” (idem, p.16) Além disso, é necessário que possa ser reproduzido em laboratório, ou seja, retirado do momento natural de ocorrência e repetido tantas vezes quantas forem necessárias para que se elaborem “leis naturais” as quais, para Jung, não são mais do que “verdades estatísticas que supõem, necessariamente, exceções.”(p.16) O acaso é algo a ser combatido e as coincidências, menosprezadas.
O pensamento ocidental é, assim, classificado como causal, analítico e linear.
O PENSAMENTO ORIENTAL
A forma de pensar oriental baseia-se no principio da casualidade, onde até mesmo o mais ínfimo detalhe pertence ao momento observado, coexistindo todos no tempo e no espaço. A coincidência, o acaso, é, portanto, um fator de grande relevância.
“...tudo o que acontece num determinado momento tem inevitavelmente a qualidade peculiar àquele momento.” (p.16)
Pode-se visualizar esse modo de pensar, como um conjunto matemático e suas noções de conteúdo e continente.
Deve-se ressaltar que a subjetividade, as condições psíquicas do observador estão inseridas no mesmo momento, sendo, portanto, uma realidade psicofísica. O observador não está ausente ou alheio ao momento.
Jung esclarece: “...a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.”(p.17)
Isso significa que o estado psíquico do observador ou sua simples presença altera a observação ou altera o objeto observado. O objeto observado não pode ser isolado da existência do observador para ser conhecido.
O pensamento oriental pode, então, ser classificado como casual, sintético, psicofísico e continente.
A INTEGRAÇÃO
A integração das formas oriental e ocidental de pensar já vem sendo feita por cientistas, notadamente entre os físicos. Os estudos de física quântica, a microfisica, já vêem demonstrando a impossibilidade de dissociar o elemento psíquico da totalidade da situação observada. O que nos enche de perguntas.
Se o observador está ”dentro” da realidade observada, quem observa a realidade observada acrescida do observador?
Há possibilidade real de qualquer conhecimento?
O que é um estado psíquico?
Como ele altera a situação ou objeto observado?
Como trazer esse conhecimento para fora dos laboratórios de “alta ciência”, para dentro das nossas vidas cotidianas e melhorar a nossa capacidade de compreensão da realidade e, consequentemente, nossas respostas a essa mesma realidade? Aplicando a racionalidade ou a fragmentação após a efetiva absorção da totalidade do momento?.
Aplicar a racionalidade ou fragmentação, nós, ocidentais já conhecemos. Então, o que significa a efetiva absorção da totalidade do momento? Que espécie de conhecimento é esse?
O PENSAMENTO OCIDENTAL E O PENSAMENTO ORIENTAL
INTRODUÇÃO
Este artigo pretende expor, esclarecer e analisar as formas de pensamento ocidental e oriental baseando-se no prefácio que C.G.Jung escreveu à tradução feita por Richard Wilhelm ao I Ching-O Livro das Mutações.
Acreditamos que seu estudo seja útil para mostrar que existem formas diversas de interpretação da realidade e que sua integração pode ampliar a habilidade humana de compreensão de sua própria vida e consequente solução de seus problemas.
O PENSAMENTO OCIDENTAL
Essa forma de pensar é, para nós, ocidentais, bastante familiar. Nossa ciência, ou nossa forma de conhecer o mundo e interpretá-lo baseia-se no principio da causalidade, ou seja, para todo efeito ou fenômeno existe uma causa prévia.
Jung (I CHING, p.17) diz: “A causalidade enquanto uma verdade meramente estatistica não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros.”
A mente ocidental, nossa racionalidade, diante de um objeto de conhecimento, tende a fragmentar, examinar, pesar, selecionar, classificar e isolar os elementos componentes buscando um “resultado claramente definido de um concordante processo causal em cadeia” (idem, p.16) Além disso, é necessário que possa ser reproduzido em laboratório, ou seja, retirado do momento natural de ocorrência e repetido tantas vezes quantas forem necessárias para que se elaborem “leis naturais” as quais, para Jung, não são mais do que “verdades estatísticas que supõem, necessariamente, exceções.”(p.16) O acaso é algo a ser combatido e as coincidências, menosprezadas.
O pensamento ocidental é, assim, classificado como causal, analítico e linear.
O PENSAMENTO ORIENTAL
A forma de pensar oriental baseia-se no principio da casualidade, onde até mesmo o mais ínfimo detalhe pertence ao momento observado, coexistindo todos no tempo e no espaço. A coincidência, o acaso, é, portanto, um fator de grande relevância.
“...tudo o que acontece num determinado momento tem inevitavelmente a qualidade peculiar àquele momento.” (p.16)
Pode-se visualizar esse modo de pensar, como um conjunto matemático e suas noções de conteúdo e continente.
Deve-se ressaltar que a subjetividade, as condições psíquicas do observador estão inseridas no mesmo momento, sendo, portanto, uma realidade psicofísica. O observador não está ausente ou alheio ao momento.
Jung esclarece: “...a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.”(p.17)
Isso significa que o estado psíquico do observador ou sua simples presença altera a observação ou altera o objeto observado. O objeto observado não pode ser isolado da existência do observador para ser conhecido.
O pensamento oriental pode, então, ser classificado como casual, sintético, psicofísico e continente.
A INTEGRAÇÃO
A integração das formas oriental e ocidental de pensar já vem sendo feita por cientistas, notadamente entre os físicos. Os estudos de física quântica, a microfisica, já vêem demonstrando a impossibilidade de dissociar o elemento psíquico da totalidade da situação observada. O que nos enche de perguntas.
Se o observador está ”dentro” da realidade observada, quem observa a realidade observada acrescida do observador?
Há possibilidade real de qualquer conhecimento?
O que é um estado psíquico?
Como ele altera a situação ou objeto observado?
Como trazer esse conhecimento para fora dos laboratórios de “alta ciência”, para dentro das nossas vidas cotidianas e melhorar a nossa capacidade de compreensão da realidade e, consequentemente, nossas respostas a essa mesma realidade? Aplicando a racionalidade ou a fragmentação após a efetiva absorção da totalidade do momento?.
Aplicar a racionalidade ou fragmentação, nós, ocidentais já conhecemos. Então, o que significa a efetiva absorção da totalidade do momento? Que espécie de conhecimento é esse?
(obs.: aquela figura ali de cima deveria estar aqui, mas neste blog Blogger não há recursos adequados para inserir imagens onde se deseja.)
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