sábado, 28 de agosto de 2010

Foram só três passos pra frente...estava dentro...feliz...a porta se fechou e desapareceu. Ela não vai mais voltar.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

JASON E A SACERDOTISA

Eu, Jason, como ego relator que sou e usando dos meus direitos individuais, conferidos pelo meu nome, de existir entre os meses de Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro e sabe-se lá o que acontece comigo quando chega dezembro, venho contar essa segunda parte da história dela, partes que me couberam saber até agora.
É a segunda vez que a vejo. Ela está lá. Parada à beira do penhasco, olhando fixamente algum ponto no mar embaixo. Às suas costas, o pequeno templo em ruínas esquecidas. Quem vai até lá? Ninguém mais vai até lá. Um templo e uma sacerdotisa devotados a Eros, o deus grego do Amor.
Uma sacerdotisa é alguém devotada a alguma coisa. Ser devotada é ser dedicada. Devoção é uma entrega sem limites, sem fim, até a morte ou até além dela. Devoção é doação e doação é Amor. Amor é o nome de Eros.
Porque ela continua ali? Acompanho seu olhar e vejo que algo está sendo içado do mar. Uma parte de uma estátua, uma grande escultura de pedra, a cabeça de um dragão. Mesmo tendo todo o tempo grego se passado, mesmo tendo se perdido sua função como sacerdotisa, ela permaneu ali, naquele mesmo local, marcando como um farol o ponto exato onde um dia, muito anterior, a cabeça do dragão tombara, derrotada numa guerra de titãs entre forças do céu e da terra. Uma estátua de pedra ou o que restou dela. Guardou para além dos milênios, com devoção suprema, além da vida e da morte, mantendo-se como um ponto de luz quase invisível, um ponto de consciência da existência daquilo que, há muito, todos esqueceram. Guardou o lugar como se velasse o sono de um filho adormecido. Ou de um amor imenso. Ele está sendo retirado do mar por forças que vão além dela. Eu soube que já tentara, mas que não chegara nem perto da profundidade onde ele estava enterrado. Desta vez, chegara até lá, mas não pode levantá-lo sozinha, então continuou esperando até que reforços lhe chegaram. Eu lhe pergunto o que significa. Ela não sabe dizer. Esqueceu-se também. Sente-se livre, aliviada, pensa que agora ele seguirá seu caminho e ela, finalmente, voltará para casa. Esse pensamento a desperta e se pergunta: que casa? que nome? que vida? Ela não sabe quem poderia ter sido antes de ter se fixado ali. Sabe, sim, que era a mulher de um homem que ao ser derrotado pelos deuses foi punido com o aprisionamento dentro da pedra. Foi derrotado porque cedeu à ira, o maior de todos os dragões e com essa forma foi petrificado. Por uma eternidade. Ela aguardou até que a eternidade passasse, que o tempo de Deus chegasse e ele pudesse ser libertado novamente. Ela diz que viu seus olhos brilharem como pedras de rubi. Muitas vezes, na escuridão, viu aqueles mesmos olhos, fixando-a, irônicos e cruéis. Podia ouvir o riso falso e mau, o som da sua voz a amaldiçoá-la.
Sei que tentou seguir adiante e até encontrou a passagem para um outro universo onde uma criança lhe sorri e logo atrás, um homem vem ao seu encontro. Uma família. Mas, ela pensa que não pode permanecer, que talvez deva voltar e seguir o destino do dragão, descobrir como libertá-lo da pedra. Mas, não. Não lhe cabe. Se os deuses ali o colocaram, somente aos deuses cabe libertá-lo. Somente a ele mesmo cabe, agora, libertar-se. Ela está em casa. Onde ele já estava.

A SACERDOTISA

Uma mulher num templo em ruínas.
Uma clareira no meio das montanhas.
Ela não sabe mais porque está ali.
Esqueceu-se de si mesma.
Só sabe que não pode sair.
Pelo vento, pressente a chegada de vida. Uma multidão, um exército, elefantes.


Atravessara as montanhas com seu exército de elefantes.
Acamparam na clareira e as ruínas do pequeno templo eram iluminadas pelas fogueiras.
Ele a viu. Por entre os restos de colunas.
Uma imagem de mulher, irreal, fugidia, imaterial, azul para além do dourado.
Levantou-se e, de olhar fixo, aproximou-se.
Ao subir os degraus, não mais a viu.
De manhã, seguiu com o exército e os elefantes para o destino: Roma.


Ela estava lá.
Habitava aquele templo, deusa e sacerdotisa, esquecida de si há séculos.
Houvera um tempo em que sua existência era cultuada.
Homens a buscavam e viam.
Sem nome, sem rosto...
Um grande hausto de satisfação e lembrança.
Como fantasma vivera nesse lugar, presa sem ter aonde ir.
O olhar de um homem que viu além das ruínas a traz de volta do esquecimento, da morte.

1999, LeonoraG.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O FUNERAL

Chego à pequena aldeia, para conversar com a velha. Confesso que quero saber como ela está, pois estou ansiosa pela sua morte. Há promessas não reveladas para além da morte dela.

É um dia quente e poeirento em algum lugar no alto das montanhas. Um lugarejo com meia dúzia de casas e uma igrejinha. Não há Casas Pernambucanas.
Pela única rua vem um cortejo fúnebre.
Típico. Dois homens, índios nativos, carregam nos ombros um comprido pedaço roliço de madeira de onde pende uma rede e nela, com certeza, está um morto.
Outros rostos, poucos, entre homens e mulheres, seguem atrás, consternados.
A princípio, pensei que fosse alguém deles, outro nativo.
Mas, eu sabia, na verdade, quem era.
Não fora sem motivo que me vira deslocada até ali.
Seguí-os até o pequeno cemitério e acompanhei o enterro.
Esperei que todos se fossem e só então pude despedir-me.

Na varanda da casa, sentada na cadeira de balanço, coloquei-me no lugar dela e pensei poder ver o mundo com os seus olhos. Com certeza me faria bem.
A vista era muito bonita, sem dúvida. Montanhas verdes ao longe. Até lá, pastos e plantações. Era bonita a fazenda, mas o calor, cheio de umidade e pressão do ar, fez-me sentir pesada e sonolenta. Cerrei os olhos ao excesso de luz.
Senti, então, a presença dela ao meu lado. Como se quisesse responder às minhas perguntas.
Sim, estava ali por causa das minhas perguntas.

Muitas vezes pensei em voltar, ela disse, mas nada havia fora daqui que realmente me convencesse a empreender o esforço de deixar este lugar.
Pensei que deveria voltar por não pertencer a este lugar, mas este lugar era o único que me pertencia. Pensei nas pessoas que falavam minha língua, acreditavam nas mesmas coisas, estudaram nos mesmos livros. E nada disso era verdadeiramente forte para me tirar daqui.

Eu não tinha mais perguntas.
Ela estava feliz.

domingo, 15 de agosto de 2010

KRISHNA E ARJUNA

No Bhagavad Gita, Arjuna tem que lutar para recuperar o poder sobre seu reino. O exército oponente é muitas vezes maior em número e muitos dos que são caros a Arjuna, como amigos, pai, irmãos, tios, estão nele. A luta de Arjuna é justa e por isso Krishna fica ao lado dele, mas não como soldado e sim, como condutor do carro de Arjuna. Arjuna está em conflito. Não quer lutar e matar aqueles que ama. E Krishna então lhe transfere ensinamentos.
Krishna é a divindade encarnada.
Arjuna é a mente humana.
Krishna conduz o carro.
O carro é o corpo de luz, o conjunto de ensinamentos, a sabedoria.
Krishna estimula e conclama Arjuna à luta justa pelo poder do reino. Essa luta é pelo domínio da própria mente, dos próprios pensamentos e, por conseqüência, do próprio Ser. Por isso não há culpa em lutar e mesmo matar, inclusive aqueles a quem se dedica afeto ou respeito. A mente luminosa, sábia, focada no Ser, que está acima e antes de tudo, deve essa vitória ao Ser. Dessa forma, a sabedoria e a verdade podem ser vistas e vivenciadas por todos.
Há culpa no medo de vencer e na omissão, pois a mente estará permitindo que o que não corresponde à sabedoria impere no mundo. Ela estará se submetendo aos pensamentos dos outros, impuros na sua grande maioria e na outra parte, ignorantes do Ser.
Quanto a matar, Krishna deixa claro que esta vida é apenas uma vida e que o corpo é apenas um dos corpos. A responsabilidade com o Ser vem antes de tudo. E aqueles que focarem sua mente em Deus, o Ser, o Ser neles também focará sua mente e estes serão os bem amados.
Os ensinamentos de Krishna estão no Bhagavad Gita.
http://www.culturabrasil.org/bhagavadgita.htm


sábado, 14 de agosto de 2010

JASON NAS PIRÂMIDES

Sim, vou te contar por onde andei neste tempo todo.
Sei que entrei um dia pela Esfinge, pretendendo chegar até a Grande Pirâmide por um suposto túnel subterrâneo.
Descendo algumas escadas, a tocha se apagou, a pilha acabou, e a escuridão se fez. Fiat Lux eu sei como se diz, mas Faça-se a escuridão não sei. Qualquer dia pode ser que procure. Toda pesquisa está tão fácil atualmente. E foi assim, no escuro, que comecei a tatear paredes e conforme fui me acostumando, comecei a enxergar pelas mãos. Paredes cobertas de inscrições em alto relevo.
Fui descendo e, de repente, me vi como uma mulher bem jovem, quase menina, numa aldeia maia, inca ou asteca. Sei que não são iguais, mas meu conhecimento não as diferencia. Só sei que os maias desapareceram do mundo subitamente sem deixar vestígios. Estranho...isso lembra-me algo como um carneiro metido a cavaleiro...O lado ruim da história é que eu estava sendo levada a um templo, como oferenda a um deus qualquer da prosperidade num desses rituais que pedem chuva e boa colheita. E essa história só teve lado ruim. Rapidamente estava dentro, trancada, no escuro. Que estranha coincidência...Dizem que não existem coincidências. Mas existem. Co-incidências no tempo, co-incidências no espaço e co-incidências de sentido (sabe-se lá o que isso significa pois ouvi isso agora, aqui, não prestei atenção se no ouvido direito ou no esquerdo. Acho que no do meio, e sobre isso contarei outra hora). De uma pirâmide pra outra, se bem que eu estava ainda na Esfinge, lá estava eu apalpando paredes. E descendo. E virando pra esquerda e outro lance para a direita e na quase escuridão total abriu-se um salão. No centro, uma forma mais escura que o escuro. À medida que me aproximava, fui percebendo a forma de uma aranha gigante. Depois de tanto tempo, até já esqueci o tamanho do medo, mas posso assegurar que foi grande. Acontece que, por obra e graça do destino, já havia muito estava morta. Aranhas teciam o destino de acordo com a mitologia grega. Quem puder que entenda o sentido. Passei por ela e segui adiante, buscando a luminosidade que vinha de longe. Sai daquele lugar, uma caverna, para a luz, em uma praia. Tento recuperar a sensação daquele momento, mas o que eu puder contar estará ainda muito longe do impacto que senti. Vou chamar de impacto do tempo. Havia pelo menos 10000 anos de diferença entre o local em que entrei e o local em que saí. Sei que ao afirmar isso, vou perder credibilidade acadêmica, mas quem realmente se importa? Aquela praia era Atlântida. E havia um homem, na praia, a quem eu tão naturalmente me dirigi, como se o tivesse visto no mesmo dia. Não tinha como não estar confusa. Conversamos sem falar. Eu soube que éramos um. Mas usamos nosso poder (seja lá qual fosse) em benefício próprio (não entrou em detalhes). E fomos punidos e nos separaram.
Não percebi como saí. Ou quanto tempo se passou. Sei que acordei um dia, atolada no poço de petróleo que existe embaixo da Grande Pirâmide. O petróleo me sugava como areia movediça. Eu deduzi que estava ali por ter fracassado em algum ponto, depois de muitas portinhas e estreitos corredores, rampas, labirintos. Um fracasso moral. Provavelmente deixei-me fascinar pela luxúria ou ganância, vibrações que emanam ali dentro como gases de pântano. Pegam qualquer desavisado. Mas, também não sei por que acaso do destino, enquanto estava ali devo ter feito alguma coisa ou pensado ou rezado ou compreendido que acionou um dispositivo, tipo elevador, que me levou sem escalas, diretamente à Câmara do Rei. Havia muita tralha por ali. Como um sótão ou porão de museu. Eu soube que deveria limpar tudo. E fui jogando fora e limpando e limpando. Ocorre-me que não sei pra onde foram todas aquelas coisas...Enfim, limpei e limpei. Até que só sobraram eu e o sarcófago. Foi assim meio assustador. Esquisito. Então me lembrei que o que acionou o dispositivo foi o fato de ter buscado compreender o Faraó e a Soberania, a capacidade de gerir o próprio destino e, ao entender que a Soberania está onde a Submissão está, a existência dos pares de opostos, e que o Faraó como Deus-soberano só era Faraó porque se submetia à Vontade Divina, plim, subi. Lá, na Câmara do Rei, o minúsculo buraquinho lá no ápice, pelo qual se vê as Plêiades, ou Três Marias, sabe-se lá o que os egípcios viam nelas, ia se abrindo, aumentando à medida em que eu me desfazia daquela tralha trimilenar. Perguntei: e agora? Nem precisaram me responder. Joguei fora o Faraó e aqui, no mundo chamado real, a escultura foi doada pra angariar fundos pra fazer cisterna no nordeste. Nem te conto essa. Voltando à faxina, olhei em volta e não tinha mais nada. As paredes já quase não existiam. Mas eles, os insistentes faladores, não estavam satisfeitos. Olhei em volta e soube que tinha que me livrar de mim. De todos os conceitos que tinha a meu respeito. De tudo o que eu pensava que os outros pensavam a meu respeito. De tudo o que pudesse significar Eu. Ah! Eu já estava ali mesmo...não tinha mais nada pra fazer....topei. E então as paredes desapareceram totalmente e o céu azul cheio de nuvens estava lá fora. Mas, olha, vou te contar....esse povo do céu não dá folga pros iniciados iniciantes....e ainda tinha o que liberar...Demorei pra entender. Havia ainda o chão sob os meus pés. E quando o apaguei, flutuei. E assim estava livre a minha mente pra saber que o chão pode ser o céu, que tudo pode estar de cabeça para baixo. Que o que chamamos vida pode ser a morte. Eu apenas sabia que não sabia mais nada.
Agora me ocorre ligar a isso um pensamento, uma pergunta. Quando enxergamos alguma coisa, a imagem que realmente vemos no fundo do olho é invertida podendo significar que o mundo, fora, o enxergado, está de cabeça para baixo, que os valores estão invertidos, que onde vemos um homem há, na verdade uma mulher, e que onde vemos uma mulher há, na verdade, um homem?

DUAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE:







DUAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE:
O PENSAMENTO OCIDENTAL E O PENSAMENTO ORIENTAL


INTRODUÇÃO

Este artigo pretende expor, esclarecer e analisar as formas de pensamento ocidental e oriental baseando-se no prefácio que C.G.Jung escreveu à tradução feita por Richard Wilhelm ao I Ching-O Livro das Mutações.
Acreditamos que seu estudo seja útil para mostrar que existem formas diversas de interpretação da realidade e que sua integração pode ampliar a habilidade humana de compreensão de sua própria vida e consequente solução de seus problemas.

O PENSAMENTO OCIDENTAL

Essa forma de pensar é, para nós, ocidentais, bastante familiar. Nossa ciência, ou nossa forma de conhecer o mundo e interpretá-lo baseia-se no principio da causalidade, ou seja, para todo efeito ou fenômeno existe uma causa prévia.
Jung (I CHING, p.17) diz: “A causalidade enquanto uma verdade meramente estatistica não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros.”
A mente ocidental, nossa racionalidade, diante de um objeto de conhecimento, tende a fragmentar, examinar, pesar, selecionar, classificar e isolar os elementos componentes buscando um “resultado claramente definido de um concordante processo causal em cadeia” (idem, p.16) Além disso, é necessário que possa ser reproduzido em laboratório, ou seja, retirado do momento natural de ocorrência e repetido tantas vezes quantas forem necessárias para que se elaborem “leis naturais” as quais, para Jung, não são mais do que “verdades estatísticas que supõem, necessariamente, exceções.”(p.16) O acaso é algo a ser combatido e as coincidências, menosprezadas.
O pensamento ocidental é, assim, classificado como causal, analítico e linear.

O PENSAMENTO ORIENTAL

A forma de pensar oriental baseia-se no principio da casualidade, onde até mesmo o mais ínfimo detalhe pertence ao momento observado, coexistindo todos no tempo e no espaço. A coincidência, o acaso, é, portanto, um fator de grande relevância.
“...tudo o que acontece num determinado momento tem inevitavelmente a qualidade peculiar àquele momento.” (p.16)
Pode-se visualizar esse modo de pensar, como um conjunto matemático e suas noções de conteúdo e continente.
Deve-se ressaltar que a subjetividade, as condições psíquicas do observador estão inseridas no mesmo momento, sendo, portanto, uma realidade psicofísica. O observador não está ausente ou alheio ao momento.
Jung esclarece: “...a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.”(p.17)
Isso significa que o estado psíquico do observador ou sua simples presença altera a observação ou altera o objeto observado. O objeto observado não pode ser isolado da existência do observador para ser conhecido.
O pensamento oriental pode, então, ser classificado como casual, sintético, psicofísico e continente.

A INTEGRAÇÃO

A integração das formas oriental e ocidental de pensar já vem sendo feita por cientistas, notadamente entre os físicos. Os estudos de física quântica, a microfisica, já vêem demonstrando a impossibilidade de dissociar o elemento psíquico da totalidade da situação observada. O que nos enche de perguntas.
Se o observador está ”dentro” da realidade observada, quem observa a realidade observada acrescida do observador?
Há possibilidade real de qualquer conhecimento?
O que é um estado psíquico?
Como ele altera a situação ou objeto observado?
Como trazer esse conhecimento para fora dos laboratórios de “alta ciência”, para dentro das nossas vidas cotidianas e melhorar a nossa capacidade de compreensão da realidade e, consequentemente, nossas respostas a essa mesma realidade? Aplicando a racionalidade ou a fragmentação após a efetiva absorção da totalidade do momento?.
Aplicar a racionalidade ou fragmentação, nós, ocidentais já conhecemos. Então, o que significa a efetiva absorção da totalidade do momento? Que espécie de conhecimento é esse?
(obs.: aquela figura ali de cima deveria estar aqui, mas neste blog Blogger não há recursos adequados para inserir imagens onde se deseja.)






BHAGAVAD GITA

O Bhagavad Gita é o canto divino de Krishna, a divindade encarnada que ensina o homem a elevar-se acima da consciência humana até uma consciência divina superior realizando desta forma, na Terra, o reinado do Céu.
http://www.culturabrasil.org/bhagavadgita.htm

JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO

Quem conta um conto aumenta um ponto.
Tenho mesmo sérias dúvidas sobre o final da história de João que todo mundo conhece.
Segundo essa versão antiga, João, depois de trocar a vaca magra por uns poucos grãos de feijão, supostamente mágicos, sobe por ele até as nuvens do céu onde encontra o castelo de um gigante malvado que aprisiona a Harpa Mágica ou a Galinha dos Ovos de Ouro, talvez as duas.
Por uma razão qualquer, indisponível no momento, João sai do castelo fugido, roubando Harpa e Galinha.
Ficou feliz o João, e quando chega lá em baixo, corta o pé de feijão.
Tudo podia ter sido diferente se o gigante da história não fosse o gigante do João, um cara bravo, malvado e ele mesmo, um ladrão.
E tendo João, em sua ingenuidade, chegado às nuvens e ao castelo encantado, pudesse ter encontrado outro tipo de guardião poderia, por direito, ter levado lá pra baixo, além da Harpa e da Galinha, também o Cálice Sagrado.
E ainda por cima, nessa precipitação, cortou o pé de feijão!

FORTALEZA

E O QUE DEFENDO TÃO ARDOROSAMENTE
TÃO TEIMOSAMENTE,
SENÃO MINHA PRÓPRIA VIDA
QUE NEM DEVERIA SER DEFENDIDA
MAS DEIXADA SOLTA
E SER VIVIDA.

1999, LeonoraG.

A ARTE DE ESCULPIR

Arte em grego é Arete ou aquilo que se realiza com maestria ou com perícia.
Esculpir é retirar de um bloco de matéria sólida, seja pedra, madeira ou outro material, uma forma definida.
Essa forma definida tanto pode representar alguma coisa existente na natureza física, como animais ou pessoas, como pode representar uma forma desconhecida nessa mesma natureza. Nesse caso, o trabalho de arte é chamado abstrato.
O objetivo buscado é dar uma forma ou uma definição, ou determinar limites de algo desconhecido ou que não se esteja sendo capaz de ver com clareza. Esse algo desconhecido pode ser uma emoção latente, ou mesmo um potencial, uma capacidade, que exige ser aplicada e, portanto, gera uma necessidade desconhecida.
Há pelo menos duas formas de trabalhar o desconhecido. Uma, intencionalmente, anteriormente criando e determinando qual a forma que o objeto tomará. A outra, deixando que o objeto se mostre lentamente ao longo da confecção. Dessa forma, nem mesmo o criador sabe o que criará até que esteja finalmente criado. A primeira pode ser caracterizada como ativa ou masculina. A segunda, como passiva, ou feminina.
De qualquer forma, esse desconhecido diz respeito ao mundo interior do indivíduo e pode ser denominado conteúdo subjetivo. Nele estão depositadas todas as experiências psíquicas e emocionais individuais. O conteúdo subjetivo é aquilo que caracteriza o indivíduo como tal e também aquilo que o faz enxergar as coisas da forma como ele as enxerga, ou seja, de uma forma toda particular, única. É por causa do conteúdo subjetivo que uma forma desconhecida pode receber o nome de uma coisa existente no mundo real cuja forma não corresponda absolutamente à forma criada pelo artista.
Um complexo emocional ou um conjunto de emoções pode ser chamado de O Guarda-Chuva, O Sol ou qualquer outro nome que guarde relação subjetiva de sentido e não de forma com o dito complexo.
O artista pode estar dizendo: no meu mundo interno só chove e eu preciso de um guarda-chuva. Só chove estaria significando: eu estou chorando por dentro e não sorrindo como num lindo dia de sol. Ou qualquer coisa assim.
A comunicação através da arte é, portanto, indireta sem por isso ser incompleta. Pelo contrário, a forma simbólica contém tudo o que é necessário dizer. A escultura, particularmente, contém tudo o que é necessário dizer sobre aquele algo antes desconhecido dentro de seus limites tridimensionais.
Dessa forma se estabelece a preocupação com os limites, as linhas externas, e com o conteúdo. Usa-se duas formas de ver ou, ainda, vê-se linhas e espaços. O espaço definido pelas linhas é pleno de conteúdo. O conteúdo é o significado, é o que a escultura representa, é o que ela quer dizer, é o que ela é.
Assim, ela é uma parte do seu criador.
O criador, o artista, buscou trazer à luz algo que estava encoberto por trevas ou que estava invisível e indeterminado dentro de si.
Encontra-se, na confecção da forma, curvas que levam a outras curvas e outras e outras. Na busca da perícia e do mais belo ou perfeito possível, percebe-se que as curvas se movem alterando umas às outras eternamente. E que, no fundo, curvas são resultado das milhares de combinações de segmentos de retas. Retas que foram seccionadas em pontos infinitamente próximos. Retas em todas as direções. Assim, o que está seccionado, limitado ou aparentemente separado, antes pertencia a um outro corpo, um outro todo. E que as linhas que agora não se vê, complementos apartados das linhas visíveis, não deixaram de existir, continuam ali. À volta da escultura, invisível, continua a existir o pedaço de madeira da qual foi esculpida e à volta deste, continua a existir a árvore que lhe deu origem e, à volta desta, aquela matéria imaterial ainda inominada e quase comprovada pelos físicos, que compõe e permeia todas as coisas e é vulgarmente conhecida como Deus.

Na escultura procurei uma forma perfeita.
Exigi a perfeição e vi o movimento eterno.
Posso passar a vida modificando cada curva, cada onda, e uma, sempre e eternamente, levará a outra.
Mas, só haveria então, eu e ela no mundo, nos alterando continuamente.
Há a necessidade de um fim, de um ponto onde ela termine e outra possa começar.
Digo que está perfeita assim, mesmo que imperfeita, pois que não há verdadeiro fim.

Buscando a forma se participa dos mistérios de Deus.
Buscando a própria forma se exige a perfeição e gira-se, gira-se, gira-se em constante transformação e, nesse girar, até se perde a consciência de si mesmo. Não se sabe mais quem é e então, de repente, pára. É hora de dizer: Estou perfeito na imperfeição. É hora de nascer. Tanto a obra quanto o artista.
Um segundo nascimento, ou o primeiro, se tudo não passou de um pesadelo.
Ou o décimo-milionésimo, tanto faz e é, quando você, como Deus, faz de si a sua própria imagem. Cria a si mesmo. Por necessidade vital se comunica e se reproduz.
É esse nascimento que dou a presenciar, a um só tempo por escolha, exercício de poder natural e responsável e também, sob o poder de uma força inominável a que costumamos reconhecer como instinto, impulso, ou será algo mais?

O ponto sem conteúdo, queria se comunicar.
Gerou, em seu desdobramento, a abundância, a vida, a mulher, o volume, a tridimensionalidade.
Que precisa de um limite, uma forma, uma manifestação, o Homem.
Mas não há término.
Não há expansão do conteúdo até um fim.
Há um permanente movimento de expansão para além do limite: ação divina infindável.

A vaidade impede os erros.
A vaidade impede o crescimento.
Comunicar sem vaidade é perfeição.
A perfeição é inútil e solitária.

O DNA


O VERBO

Sem CERTO ou ERRADO
Sem BONITO ou FEIO
Sem ONTEM ou AMANHÃ
etc.
etc.
etc.
Resta na frase o
VERBO.


1999, LeonoraG.

sábado, 7 de agosto de 2010

TAO

O CENTRO COM TODOS,
TODOS COM O CENTRO,
TODOS ENTRE SI.
O CENTRO ESTARÁ, ENTÃO,
EM TODA PARTE E
EM LUGAR NENHUM.
CADA UM POR SI,
SERÁ ENTÃO,
"UM" E "O" CENTRO.

Muitos são os que se perdem no labirinto. Conta-se que pouquíssimos, ou apenas um, Teseu, saiu ou venceu a luta contra o Minotauro, o monstro que habitava o labirinto. Minos era o nome do rei de Creta. O artifício de Teseu foi o fio de Ariadne. Os mitos escondem ensinamentos sobre a vida para o que não pode ser traduzido em palavras porque ainda não há palavras ou ciência. São metáforas de situações reais.
Labirintos são estruturas sólidas pesadas, feitas de caminhos sem continuidade, de voltas e retornos sobre si mesmo, de escuridão, de confusão, de perda de ponto de referência, de medo.
São feitos de conceitos enrijecidos, de comportamentos e crenças automatizadas e inconscientes. Não se sabe o que é você mesmo e o que é o outro, não se sabe o que é passado ou presente ou futuro, perde-se a noção de tempo. Certo é que de tão preocupados com o Minotauro, esquece-se do labirinto que é o que realmente mata.
Hoje podemos fazer a ligação racional, ou uma conexão de sentido, entre o Labirinto e o cérebro, e compreender o Minotauro como o conjunto de nossos próprios fantasmas e o tormento de quem se perde nos próprios pensamentos e não encontra luz de saída.
A figura do Tao, é a organização do labirinto de forma que todos os caminhos se comuniquem, que as conexões (de sentido entre as coisas) se façam, que a luz não seja bloqueada. Por onde se entra e por onde se sai é pelo mesmo lugar...o Centro.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

ZEN

Se eu tivesse que lhe dizer alguma coisa
gostaria que fosse muito ZEN,
assim como um hai-kai,
uma única palavra,
tão certa,
tão absoluta,
tão completa,
que acertasse em cheio, na mosca.
Muito prazer, Leonora.


1999, LeonoraG.

VAIDADE

Até mesmo a poesia é vaidade
de quem esconde o que sente.
De quem, senão de si mesmo,
esconde,
o quê?
Sua própria humanidade.


1999, LeonoraG.

UMA MULHER

Uma mulher.
Uma mulher complica as coisas.
Uma mulher sempre complica as coisas
para os olhos de um homem.
Uma mulher está para um homem
assim como
a tridimensionalidade para a bidimensionalidade,
a TV colorida para a TV em preto e branco,
a mente sistêmica para a mente linear.

A união gera movimento,
quarta dimensão,
tempo intemporal.

1999, LeonoraG.

UMA BARATA

Resistente como uma barata,
na ausência do espírito
me defendi.
E tanto, e tanto, que
em seu retorno,
não sei o que faço
quando diz: Eu já estou aqui!


1999, LeonoraG.

UM

Saí para te procurar.
Não estavas no sol
nem na sombra.
Por quê brincas assim,
de me encontrar?

Procurei por uma palavra,
uma pessoa,
uma gota...
Acho que não existe o Um.

1999, LeonoraG.

TANGENTE

No resultado da força centrífuga,
a tangente,
sem hora marcada,
sem bagagem
sem corpo
sem nada.


1999, LeonoraG.

SEIS DIMENSÕES

Seis dimensões,
seis casais,
um só Espírito.
Vou acabar com essa orgia e
entrar de vez na solidão.
Só há um interlocutor possível para o que diz essa mulher
e, no entanto, cabe em todos.
Por quanto tempo mais terei de esperar para participar
dessa festinha de vocês,
além de mera espectadora,
quase onisciente e totalmente impotente?
O tempo está passando e vou ficando mais jovem.
O que posso fazer, Senhor?
Cale a boca e obedeça, oh mulher de pouca fé.


1999, LeonoraG.
QUEBRA-CABEÇAS

Havia um quebra-cabeças.
Havia uma peça faltando.
Havia um brinquedo de montar
cuja forma preenchia a falha.

Ao encaixar, chave e fechadura,
todas as partes, por cicatrizes unidas,
voltam a compor um todo,
uma só face,
um nome,
e é o meu.

Num só corpo e numa só face,
agora divinos,
não residem mais muitas vontades.
A guerra acabou.
Apenas uma vontade impera
e me faz escrava fiel.
De perfeita liberdade, escolho
esperar-te, esperar-te, esperar-te.

E acendo o fogo.
E preparo o alimento.
E perfumo tuas roupas
Porque, certamente, logo chegas.

Te espero em casa,
onde já estás.

1999, LeonoraG.

QUANDO A VELHA MORREU

Quando a velha morreu
Quando a cela solitária se abriu
Quando subiu à Assembleia dos Sábios
Quando uniu-se a Ashtar
Quando as serpentes vermelhas se tatuaram em fogo em suas costas,
Quando todas as dimensões se uniram em uníssono,
o equívoco se desfez,
o caminho se recompôs,
o templo se mostrou por inteiro.
Os guardiães abriram as portas,
o Cálice foi alcançado,
o conteúdo vertido,
todo o mundo, de miséria, se verteu em Paraíso.


1999, LeonoraG.

NON-SENSE

Como podem todos viver sem sentido?
A nova ordem é não temer o non-sense.
Que Deus me ajude a
não temer sua inexistência.

Que sensação pode gerar
viver num mundo
sem pensar
no sentido?
Flutuar.
Ser tão leve que a mais leve brisa
possa me carregar.

Para qualquer lado eu irei.
Em qualquer lugar eu estarei
E vocês, todos, não ousem,
Com suas mentes, me repreender,
Pois que não foi senão por amá-los
Que demorei tanto para aprender.

Eu não sei como, mas vou.
Seja aqui, ali, lá ou muito mais além.
Seja com você ou com alguém,
Com todos ou ninguém,
Pouco importa.
Não valho mais nem menos que cada um de nós:
Um vintém!


1999, LeonoraG.

TEMPO LINEAR

Não há tempo linear, mas radial.
Não há matéria intransponível.
Não há desordem incurável.
O certo é que preciso encontrar a Forma
o Limite
o abraço masculino que contém e delineia a
infinita feminilidade da vida.


1999, LeonoraG.

JÁ NÃO SEI

Já não sei o que dizer pois não me reconheço.
Nem o que eu era,
nem o que virei a ser.
O que há, agora, é um nada prazeiroso,
um vazio gostoso,
um sorriso levemente malicioso
que diz: enfim, posso gostar de mim.


1999, LeonoraG.

IDÔNEO

I don’t know.
Idonou.
Idôneo.
O atestado de idoneidade diz:
Não sei de nada.
Idoneidade é a dignidade de dizer
Eu não sei.


1999, LeonoraG.

É POSSÍVEL

É possível que eu simplesmente não faça idéia do que é que me faz feliz de verdade.
É possível que o que tem a faculdade de me fazer feliz de verdade seja algo completamente desconhecido.
É possível que ao basear minha felicidade em coisas conhecidas, eu não saiba o que estou dizendo.
É possível que, no futuro, ao tempo que chamo de solidão, Deus chame de benção.
É possível que um remédio seja, antes, no efeito, um veneno.

É possível que suas mãos
Sobre meu rosto
Num carinho
Pelo qual anseio e choro
Sejam ilusão de um bem
A se tornar a face do horror, adiante.
É possível.
Estou só no alto da montanha.
O uivo do vento, à noite, me aterroriza.
O sol vai nascer.
Não é possível combater o uivo do vento.
Não é possível aprisionar ou eliminar os pensamentos.
É possível deixar-se tocar por eles.
É possível deixar-se tocar por aquilo que não amas.
Deixe-se tocar.
Deixe-se congelar.
Deixe-se conspurcar.
Deixe-se corromper.
Deixe-se levar.
Deixe-se morrer.
Deixe-se enlouquecer.
Deixe-se matar.
Deixe-se enrijecer.
Deixe-se alfinetar.
Deixe-se aquietar.

É possível que, congelada,
Sentada no alto da montanha
Eu morra
Sem chance de ressurreição
E simplesmente aceite a total e irreversível
Dissolução de mim.
Por que não?

Sentada no alto da montanha,
O que se vê é o mar,
Extensão intransponível.
No fundo, jaz a cabeça do dragão,
A bola de fogo,
O fogo dos deuses,
A flor de ouro.
E daí?
Na adversidade, a melhoria do caráter.

1999, LeonoraG.

QUERIA CONVERSAR COM VOCÊ

Queria conversar com você.
Me perguntei: dizer o quê?
Talvez começasse pelo princípio
e encontrasse meu próprio silêncio.
O que mais se pode dizer do princípio?
Talvez começasse pelo fim
e novamente encontrasse meu próprio silêncio.
O que mais se pode dizer do fim?
Se, do princípio ao fim, o que fala mais alto é o silêncio,
dizer então, o quê?
É bom assistir à TV com você.


1999, LeonoraG.

COMO DEUS VÊ

Como Deus vê as coisas?
Ele sabe as coisas por dentro delas,
sendo elas.
Como Deus me vê?
Ele me sabe por dentro, está dentro.
Ele me sabe por fora,
(há tantos observadores... gente, inseto, planta...)
está fora.
Ele me sabe em todo tempo,
presente, passado, futuro,
ao mesmo tempo,
de trás prá frente,
de cabeça para baixo e
no fim.
Deus me vê de um modo, para minha mente tão confuso,
que parece um ser caótico e que,
para eu poder ver como Deus vê
e entender como Deus entende
e pensar como Deus pensa,
e, desse modo, acessar a mente divina,
a minha, pobre e pequenina,
quase enlouquece e pára.

Na mente de Deus não há estruturas sólidas.
Tudo é penetrável,
tudo é fluido,
tudo é luz.
Não há limites,
não há em cima ou em baixo.
Então o que há?
Talvez, um fluxo contínuo,
um ser contínuo,
sem palavras, telepático.
Um som contínuo, frequência contínua,
movimento.

Deus vê luz contínua.
Deus vê tudo unificado.
Deus me vê como se visse a si mesmo.
Deus pensa que eu sou Deus.
Deus pensa que eu sou como ele.
Ou ele está certo e eu, errado,
ou ele ainda não me vê,
não nasci.
Como Deus sabe tudo, então,
se pensa que sou como ele?
Mas se ele pensa, eu sou.
Sou todos ao mesmo tempo.

Pode a mente humana saber?
Esquecemos como se vê?
Esquecemos como se ouve?
Esquecemos o que somos ou, então,
ainda não fomos.
O futuro sonhado cria,
no presente,
o passado.


1999, LeonoraG.

BURACO NEGRO

O buraco negro sequioso,
se alimenta de luz externa
atraindo, sugando, girando.
E tão esperto ele é que,
quando ela lhe chega à boca,
à porta,
às mãos,
verticalmente se impõe e diz:
O que é que você quer de mim?

A luz que foi atraída,
de repente não entende nada.
Não percebe a sedução e entra desavisada.

Quem é um
Quem é o outro
Agora é um
Depois o outro.
A sedução é a arte de quem esconde a verdade.
Primeiro, diz não quando é sim,
e sim, quando quer dizer não.
Depois, quando já envolveu,
quando tem tudo na mão, diz:
Tanto faz!

E quem está dentro não sabe
se vai prá frente ou prá trás.
Prá trás está a vaidade
de quem não viu a verdade,
de quem se deixou seduzir.
E, se deixando, encobriu
de si mesmo,
a intenção.

Seja luz, seja escuridão,
a intenção é a mesma.
Encobrir.
Engolfar.
Possuir.
Abraçar.


1999, LeonoraG.

ATÉ AGORA

Até agora,
até agora,
hoje, esse momento,
não pude deter-me numa forma,
conter-me na imperfeição
dos limites
do tempo.
E, assim, ansiando ser livre,
tanto mais firmemente estava presa
ao desejo
do fim
da morte.
Imperfeita perfeição,
a própria liberdade do ser
de ser
em constante movimento
dentro e fora da forma
fora e dentro, idênticas forças,
tornam visível o invisível e fazem desaparecer o fim,
a forma.


1999, LeonoraG.

ARTE

Arte, arte, arte
arte por toda parte.
O que esconde?
Areté.
Se o português esconde o ARTE

Arte, arte, arte
arte por toda parte.
O que esconde?
Areté.
Se o português esconde o grego,
o que estará por trás do inglês?
Areté é o resultado da ação de quem quer o Belo.
Ser, saber, fazer a Beleza
até na dor de quem tem de mudar de rumo
e não quer.

Te dei corpo, alma e mente,
tens de me devolver.
Se não queres, não podes reter.
Traga-me de volta os Guerreiros
e todas as minhas palavras.
Te devolvo o que me deste:
vazio e expulsão.
Mas, já que melhoraste meu saber e minha arte,
assim transformado
te devolvo
o negro vazio
em noite de céu estrelado.


1999, LeonoraG.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

NO DESERTO

Houve um dia, no deserto.
De repente, estava lá outra vez. No meio do amarelo, seco, áspero e velho conhecido deserto. Não era bom, mas se estava lá, o motivo se faria compreender.
Alguns passos, algum tempo e uma forma foi se distinguindo logo à frente, em outros tons e cores, rompendo o extenuante amarelo.
Duas pessoas, em pé, levemente inclinadas, apoiadas lado a lado uma à outra, em pesos idênticos. Um homem e uma mulher. Sentinelas com suas lanças, guardando um algo qualquer em algum lugar soterrado pela areia que não é mais do que tempo, tempo e tempo passado. Eles guardavam um local para alguém e adormeceram de tanto esperar. Não se podia ver o que eles guardavam, mas sem dúvida, estava por ali.
Como se comigo tivesse vindo o vento que lhe tocasse o rosto e dissesse ao ouvido: “É hora de acordar”, moveu-se a sentinela feminina, desarranjando o equilíbrio das forças opostas, em sono, acordando também a sentinela masculina. Reconheço, agora, que nesse segundo atemporal é que se instalou o equívoco.
Enquanto a mulher lentamente acordava, antes do homem acordar, o mesmo vento bateu na areia e, num relance, pude ver algo. Compreendi que era o local, aquilo que eles guardavam.
Não olhei mais para eles, e devia. Não esperei que acordassem. Não esperei que o vento acabasse de levantar toda a areia. Não esperei que o tempo libertasse do esquecimento “aquilo” pelo que eu tanto procurava.
Havia um caminho e eu tomei o desvio. Era o meu caminho. Era o meu destino. Nada nem ninguém poderia tirá-lo de mim, a não ser eu mesma. Algo em mim. Um traço de personalidade ainda incontrolado, misto de cansaço, sede, desespero, vaidade, paixão, velhice e juventude, ansiedade e ignorância, enfim, todas as paixões humanas juntas. Nada que não possa ser chamado de um traço de personalidade.
O certo é que tomei o desvio e ainda não sei se já achei o caminho certo. Certo é que, literalmente, cavei uma entrada. Não sei se pela lateral ou pelos fundos, totalmente sem direção e, é claro, sem os refinamentos da educação e da perícia, as conseqüências foram, se não catastróficas, desastrosas.
Entrei. De uma areia para outra. De cara no chão. Como alguém cuspido de um naufrágio. Fui recolhida por algumas pessoas e levada para uma cabana. Sentia-me ainda doente e fraca, mas sabia que estava em casa. Eu havia chegado em casa. Achei que merecia, afinal, depois de tanto procurar, de tanto me perder, de tanto que doera, depois de tanto tempo.
Assim eu me sentia quando um homem entrou. Eu o reconheci. Tudo nele era meu há milênios. Tudo nele era minha casa. Desejei que me olhasse, sorrisse e me abraçasse. Ele me olhou sim, e eu congelei. Nenhuma palavra ele me disse e eu tampouco pude dizer qualquer coisa.
Alguns dias se passaram assim, sem comunicação, sem palavras. Eu ia ter com ele na praia, não sem antes brigar muito comigo mesma, com meu próprio orgulho, que não aceitava a atitude dele, de menosprezo e, por baixo ainda, de fúria contida. Tentei me comunicar segurando sua mão. Ele impediu o fluxo e o reverteu. Fez-me sentir e saber a sua raiva.
Primeiro eu soube que havia demorado demais para chegar, que havia criado o hábito de pegar desvios e que, num determinado momento, quando o caminho se abriu, reto e fácil, eu esqueci o objetivo e voltei ao começo, de trás pra frente, sempre me complicando. Isso o retinha, há tempos, irritado comigo. Nada que ele fizesse conseguia me fazer lembrar. Na verdade, sem mim ali, nada podia ser feito por mim, aqui. E, conseqüentemente, nada do que disso dependesse, poderia se manifestar, inclusive o que se referisse a ele, aqui.
Depois, eu soube que por isso ainda teria que voltar para cá, não podia ficar e me apavorei. Foi só então que consegui dizer alguma coisa e foi: Eu não vou voltar lá. Eu já te encontrei pra você. Agora faça a sua parte. Não posso fazer tudo sozinha.
E quando ele saiu, eu também me vi de volta.

APRENDI

Aprendi a ver as coisas
com tantos olhos
quantos forem necessários até descobrir
o ponto
que me faz sorrir.

Por não te ter, chorei.
E o não te ter fui deslocando,
ponto a ponto, até perceber
que, por não te ter,
tenho,
em cada um, em cada outro,
nova possibilidade,
pois te encontrar, te ter,
seria um fim,
morrer.

Assim, vejo de outro modo
a solidão que eu jamais quis.
E vivo apaixonadamente feliz.

1999, LeonoraG.

IMAGENS MENTAIS

No prefácio escrito por Carl G.Jung, psicanalista suíço, ao I Ching, livro oracular chinês, compilado por Richard Wilhelm, encontramos:

Na Teoria das Idéias do I Ching, “...todo conhecimento no mundo visível é um efeito de uma imagem, isto é, de uma idéia num mundo invisível. O que acontece na Terra é uma reprodução de um acontecimento num mundo situado além de nossas percepções sensoriais; quanto à sua ocorrência no tempo, é sempre posterior ao evento supra-sensível. Os homens santos e sábios, estando em contato com aquelas esferas mais elevadas, têm acesso a essas idéias através de uma intuição direta e, assim, podem intervir nos acontecimentos do mundo. Desse modo, o HOMEM está ligado ao CÉU, o mundo supra-sensível das idéias e à TERRA, o mundo material das coisas visíveis, formando com eles a tríade dos poderes primordiais.” (1)

Imagens mentais ou imagens psíquicas são imagens que vemos dentro da mente e não no mundo material ou visível aos olhos. Essas imagens são vistas com os olhos da alma.

“Uma imagem inconsciente pode alcançar a consciência de maneira direta, literalmente.” (2)

Ou seja, de repente, sem mais nem menos, sem que se saiba de onde, ela se estampa na mente com toda a força comunicativa de seu conteúdo. Simplesmente, por ela se sabe tudo o que nela mesma está contido, sem esforço. É um saber intuitivo, direto e completo.

“Uma imagem inconsciente pode também alcançar a consciência de maneira indireta, através de um sonho, associação ou premonição para cuja compreensão é preciso utilizar a linguagem simbólica.” (3)

Nos dois casos, a imagem se comunica no presente mesmo correspondendo a fatos que ainda virão a ocorrer. Sobre isso, Jung outra vez:
“...quando se trata de acontecimentos futuros...estes não são síncronos, mas sincronísticos, porque são experimentados como Imagens Psíquicas no presente, como se o acontecimento objetivo já existisse.” (4)
As imagens mentais ocorrem quando:
“...há um certo estreitamento da consciência, acompanhado de um fortalecimento simultâneo do inconsciente, facilmente reconhecível...” (5)

Isso quer dizer que quando nos permitimos parar de pensar sobre algo (concentração), quando diminuímos a atenção ou o desejo de consciência e deixamos que o inconsciente aflore, na verdade estamos expandindo a própria consciência (desconcentrando, ampliando). A mente assim, busca outros dados, mais além do ponto onde estava e depois retorna com uma imagem completa, condensada.

O velho sábio chinês, eternizado no livro do I Ching, diz:
“Quando se quer comprimir algo é preciso antes deixar que se expanda completamente.”

Em outras palavras, quando se deseja uma síntese é preciso fazer uma longa análise. Imagens são informações complexas. Qualquer imagem encontrada no mundo visível o é. Uma condensação de informações. Os dados mais básicos, mais simples, dos quais se compõe a imagem, desaparecem da consciência imediata apesar de continuarem lá. É dessa forma que esquecemos do quê as coisas são feitas. Saber que imagens se decompõem em informações, que informações são pensamentos, que pensamentos são dados, que dados se combinam de formas infinitas, serve para que possamos aprender a criar conscientemente o mundo em que queremos viver.