É possível que eu simplesmente não faça idéia do que é que me faz feliz de verdade.
É possível que o que tem a faculdade de me fazer feliz de verdade seja algo completamente desconhecido.
É possível que ao basear minha felicidade em coisas conhecidas, eu não saiba o que estou dizendo.
É possível que, no futuro, ao tempo que chamo de solidão, Deus chame de benção.
É possível que um remédio seja, antes, no efeito, um veneno.
É possível que suas mãos
Sobre meu rosto
Num carinho
Pelo qual anseio e choro
Sejam ilusão de um bem
A se tornar a face do horror, adiante.
É possível.
Estou só no alto da montanha.
O uivo do vento, à noite, me aterroriza.
O sol vai nascer.
Não é possível combater o uivo do vento.
Não é possível aprisionar ou eliminar os pensamentos.
É possível deixar-se tocar por eles.
É possível deixar-se tocar por aquilo que não amas.
Deixe-se tocar.
Deixe-se congelar.
Deixe-se conspurcar.
Deixe-se corromper.
Deixe-se levar.
Deixe-se morrer.
Deixe-se enlouquecer.
Deixe-se matar.
Deixe-se enrijecer.
Deixe-se alfinetar.
Deixe-se aquietar.
É possível que, congelada,
Sentada no alto da montanha
Eu morra
Sem chance de ressurreição
E simplesmente aceite a total e irreversível
Dissolução de mim.
Por que não?
Sentada no alto da montanha,
O que se vê é o mar,
Extensão intransponível.
No fundo, jaz a cabeça do dragão,
A bola de fogo,
O fogo dos deuses,
A flor de ouro.
E daí?
Na adversidade, a melhoria do caráter.
1999, LeonoraG.
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