Arte em grego é Arete ou aquilo que se realiza com maestria ou com perícia.
Esculpir é retirar de um bloco de matéria sólida, seja pedra, madeira ou outro material, uma forma definida.
Essa forma definida tanto pode representar alguma coisa existente na natureza física, como animais ou pessoas, como pode representar uma forma desconhecida nessa mesma natureza. Nesse caso, o trabalho de arte é chamado abstrato.
O objetivo buscado é dar uma forma ou uma definição, ou determinar limites de algo desconhecido ou que não se esteja sendo capaz de ver com clareza. Esse algo desconhecido pode ser uma emoção latente, ou mesmo um potencial, uma capacidade, que exige ser aplicada e, portanto, gera uma necessidade desconhecida.
Há pelo menos duas formas de trabalhar o desconhecido. Uma, intencionalmente, anteriormente criando e determinando qual a forma que o objeto tomará. A outra, deixando que o objeto se mostre lentamente ao longo da confecção. Dessa forma, nem mesmo o criador sabe o que criará até que esteja finalmente criado. A primeira pode ser caracterizada como ativa ou masculina. A segunda, como passiva, ou feminina.
De qualquer forma, esse desconhecido diz respeito ao mundo interior do indivíduo e pode ser denominado conteúdo subjetivo. Nele estão depositadas todas as experiências psíquicas e emocionais individuais. O conteúdo subjetivo é aquilo que caracteriza o indivíduo como tal e também aquilo que o faz enxergar as coisas da forma como ele as enxerga, ou seja, de uma forma toda particular, única. É por causa do conteúdo subjetivo que uma forma desconhecida pode receber o nome de uma coisa existente no mundo real cuja forma não corresponda absolutamente à forma criada pelo artista.
Um complexo emocional ou um conjunto de emoções pode ser chamado de O Guarda-Chuva, O Sol ou qualquer outro nome que guarde relação subjetiva de sentido e não de forma com o dito complexo.
O artista pode estar dizendo: no meu mundo interno só chove e eu preciso de um guarda-chuva. Só chove estaria significando: eu estou chorando por dentro e não sorrindo como num lindo dia de sol. Ou qualquer coisa assim.
A comunicação através da arte é, portanto, indireta sem por isso ser incompleta. Pelo contrário, a forma simbólica contém tudo o que é necessário dizer. A escultura, particularmente, contém tudo o que é necessário dizer sobre aquele algo antes desconhecido dentro de seus limites tridimensionais.
Dessa forma se estabelece a preocupação com os limites, as linhas externas, e com o conteúdo. Usa-se duas formas de ver ou, ainda, vê-se linhas e espaços. O espaço definido pelas linhas é pleno de conteúdo. O conteúdo é o significado, é o que a escultura representa, é o que ela quer dizer, é o que ela é.
Assim, ela é uma parte do seu criador.
O criador, o artista, buscou trazer à luz algo que estava encoberto por trevas ou que estava invisível e indeterminado dentro de si.
Encontra-se, na confecção da forma, curvas que levam a outras curvas e outras e outras. Na busca da perícia e do mais belo ou perfeito possível, percebe-se que as curvas se movem alterando umas às outras eternamente. E que, no fundo, curvas são resultado das milhares de combinações de segmentos de retas. Retas que foram seccionadas em pontos infinitamente próximos. Retas em todas as direções. Assim, o que está seccionado, limitado ou aparentemente separado, antes pertencia a um outro corpo, um outro todo. E que as linhas que agora não se vê, complementos apartados das linhas visíveis, não deixaram de existir, continuam ali. À volta da escultura, invisível, continua a existir o pedaço de madeira da qual foi esculpida e à volta deste, continua a existir a árvore que lhe deu origem e, à volta desta, aquela matéria imaterial ainda inominada e quase comprovada pelos físicos, que compõe e permeia todas as coisas e é vulgarmente conhecida como Deus.
Na escultura procurei uma forma perfeita.
Exigi a perfeição e vi o movimento eterno.
Posso passar a vida modificando cada curva, cada onda, e uma, sempre e eternamente, levará a outra.
Mas, só haveria então, eu e ela no mundo, nos alterando continuamente.
Há a necessidade de um fim, de um ponto onde ela termine e outra possa começar.
Digo que está perfeita assim, mesmo que imperfeita, pois que não há verdadeiro fim.
Buscando a forma se participa dos mistérios de Deus.
Buscando a própria forma se exige a perfeição e gira-se, gira-se, gira-se em constante transformação e, nesse girar, até se perde a consciência de si mesmo. Não se sabe mais quem é e então, de repente, pára. É hora de dizer: Estou perfeito na imperfeição. É hora de nascer. Tanto a obra quanto o artista.
Um segundo nascimento, ou o primeiro, se tudo não passou de um pesadelo.
Ou o décimo-milionésimo, tanto faz e é, quando você, como Deus, faz de si a sua própria imagem. Cria a si mesmo. Por necessidade vital se comunica e se reproduz.
É esse nascimento que dou a presenciar, a um só tempo por escolha, exercício de poder natural e responsável e também, sob o poder de uma força inominável a que costumamos reconhecer como instinto, impulso, ou será algo mais?
O ponto sem conteúdo, queria se comunicar.
Gerou, em seu desdobramento, a abundância, a vida, a mulher, o volume, a tridimensionalidade.
Que precisa de um limite, uma forma, uma manifestação, o Homem.
Mas não há término.
Não há expansão do conteúdo até um fim.
Há um permanente movimento de expansão para além do limite: ação divina infindável.
A vaidade impede os erros.
A vaidade impede o crescimento.
Comunicar sem vaidade é perfeição.
A perfeição é inútil e solitária.
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