Eu, Jason, como ego relator que sou e usando dos meus direitos individuais, conferidos pelo meu nome, de existir entre os meses de Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro e sabe-se lá o que acontece comigo quando chega dezembro, venho contar essa segunda parte da história dela, partes que me couberam saber até agora.
É a segunda vez que a vejo. Ela está lá. Parada à beira do penhasco, olhando fixamente algum ponto no mar embaixo. Às suas costas, o pequeno templo em ruínas esquecidas. Quem vai até lá? Ninguém mais vai até lá. Um templo e uma sacerdotisa devotados a Eros, o deus grego do Amor.
É a segunda vez que a vejo. Ela está lá. Parada à beira do penhasco, olhando fixamente algum ponto no mar embaixo. Às suas costas, o pequeno templo em ruínas esquecidas. Quem vai até lá? Ninguém mais vai até lá. Um templo e uma sacerdotisa devotados a Eros, o deus grego do Amor.
Uma sacerdotisa é alguém devotada a alguma coisa. Ser devotada é ser dedicada. Devoção é uma entrega sem limites, sem fim, até a morte ou até além dela. Devoção é doação e doação é Amor. Amor é o nome de Eros.
Porque ela continua ali? Acompanho seu olhar e vejo que algo está sendo içado do mar. Uma parte de uma estátua, uma grande escultura de pedra, a cabeça de um dragão. Mesmo tendo todo o tempo grego se passado, mesmo tendo se perdido sua função como sacerdotisa, ela permaneu ali, naquele mesmo local, marcando como um farol o ponto exato onde um dia, muito anterior, a cabeça do dragão tombara, derrotada numa guerra de titãs entre forças do céu e da terra. Uma estátua de pedra ou o que restou dela. Guardou para além dos milênios, com devoção suprema, além da vida e da morte, mantendo-se como um ponto de luz quase invisível, um ponto de consciência da existência daquilo que, há muito, todos esqueceram. Guardou o lugar como se velasse o sono de um filho adormecido. Ou de um amor imenso. Ele está sendo retirado do mar por forças que vão além dela. Eu soube que já tentara, mas que não chegara nem perto da profundidade onde ele estava enterrado. Desta vez, chegara até lá, mas não pode levantá-lo sozinha, então continuou esperando até que reforços lhe chegaram. Eu lhe pergunto o que significa. Ela não sabe dizer. Esqueceu-se também. Sente-se livre, aliviada, pensa que agora ele seguirá seu caminho e ela, finalmente, voltará para casa. Esse pensamento a desperta e se pergunta: que casa? que nome? que vida? Ela não sabe quem poderia ter sido antes de ter se fixado ali. Sabe, sim, que era a mulher de um homem que ao ser derrotado pelos deuses foi punido com o aprisionamento dentro da pedra. Foi derrotado porque cedeu à ira, o maior de todos os dragões e com essa forma foi petrificado. Por uma eternidade. Ela aguardou até que a eternidade passasse, que o tempo de Deus chegasse e ele pudesse ser libertado novamente. Ela diz que viu seus olhos brilharem como pedras de rubi. Muitas vezes, na escuridão, viu aqueles mesmos olhos, fixando-a, irônicos e cruéis. Podia ouvir o riso falso e mau, o som da sua voz a amaldiçoá-la.
Sei que tentou seguir adiante e até encontrou a passagem para um outro universo onde uma criança lhe sorri e logo atrás, um homem vem ao seu encontro. Uma família. Mas, ela pensa que não pode permanecer, que talvez deva voltar e seguir o destino do dragão, descobrir como libertá-lo da pedra. Mas, não. Não lhe cabe. Se os deuses ali o colocaram, somente aos deuses cabe libertá-lo. Somente a ele mesmo cabe, agora, libertar-se. Ela está em casa. Onde ele já estava.
Sei que tentou seguir adiante e até encontrou a passagem para um outro universo onde uma criança lhe sorri e logo atrás, um homem vem ao seu encontro. Uma família. Mas, ela pensa que não pode permanecer, que talvez deva voltar e seguir o destino do dragão, descobrir como libertá-lo da pedra. Mas, não. Não lhe cabe. Se os deuses ali o colocaram, somente aos deuses cabe libertá-lo. Somente a ele mesmo cabe, agora, libertar-se. Ela está em casa. Onde ele já estava.
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