quarta-feira, 4 de agosto de 2010

NO DESERTO

Houve um dia, no deserto.
De repente, estava lá outra vez. No meio do amarelo, seco, áspero e velho conhecido deserto. Não era bom, mas se estava lá, o motivo se faria compreender.
Alguns passos, algum tempo e uma forma foi se distinguindo logo à frente, em outros tons e cores, rompendo o extenuante amarelo.
Duas pessoas, em pé, levemente inclinadas, apoiadas lado a lado uma à outra, em pesos idênticos. Um homem e uma mulher. Sentinelas com suas lanças, guardando um algo qualquer em algum lugar soterrado pela areia que não é mais do que tempo, tempo e tempo passado. Eles guardavam um local para alguém e adormeceram de tanto esperar. Não se podia ver o que eles guardavam, mas sem dúvida, estava por ali.
Como se comigo tivesse vindo o vento que lhe tocasse o rosto e dissesse ao ouvido: “É hora de acordar”, moveu-se a sentinela feminina, desarranjando o equilíbrio das forças opostas, em sono, acordando também a sentinela masculina. Reconheço, agora, que nesse segundo atemporal é que se instalou o equívoco.
Enquanto a mulher lentamente acordava, antes do homem acordar, o mesmo vento bateu na areia e, num relance, pude ver algo. Compreendi que era o local, aquilo que eles guardavam.
Não olhei mais para eles, e devia. Não esperei que acordassem. Não esperei que o vento acabasse de levantar toda a areia. Não esperei que o tempo libertasse do esquecimento “aquilo” pelo que eu tanto procurava.
Havia um caminho e eu tomei o desvio. Era o meu caminho. Era o meu destino. Nada nem ninguém poderia tirá-lo de mim, a não ser eu mesma. Algo em mim. Um traço de personalidade ainda incontrolado, misto de cansaço, sede, desespero, vaidade, paixão, velhice e juventude, ansiedade e ignorância, enfim, todas as paixões humanas juntas. Nada que não possa ser chamado de um traço de personalidade.
O certo é que tomei o desvio e ainda não sei se já achei o caminho certo. Certo é que, literalmente, cavei uma entrada. Não sei se pela lateral ou pelos fundos, totalmente sem direção e, é claro, sem os refinamentos da educação e da perícia, as conseqüências foram, se não catastróficas, desastrosas.
Entrei. De uma areia para outra. De cara no chão. Como alguém cuspido de um naufrágio. Fui recolhida por algumas pessoas e levada para uma cabana. Sentia-me ainda doente e fraca, mas sabia que estava em casa. Eu havia chegado em casa. Achei que merecia, afinal, depois de tanto procurar, de tanto me perder, de tanto que doera, depois de tanto tempo.
Assim eu me sentia quando um homem entrou. Eu o reconheci. Tudo nele era meu há milênios. Tudo nele era minha casa. Desejei que me olhasse, sorrisse e me abraçasse. Ele me olhou sim, e eu congelei. Nenhuma palavra ele me disse e eu tampouco pude dizer qualquer coisa.
Alguns dias se passaram assim, sem comunicação, sem palavras. Eu ia ter com ele na praia, não sem antes brigar muito comigo mesma, com meu próprio orgulho, que não aceitava a atitude dele, de menosprezo e, por baixo ainda, de fúria contida. Tentei me comunicar segurando sua mão. Ele impediu o fluxo e o reverteu. Fez-me sentir e saber a sua raiva.
Primeiro eu soube que havia demorado demais para chegar, que havia criado o hábito de pegar desvios e que, num determinado momento, quando o caminho se abriu, reto e fácil, eu esqueci o objetivo e voltei ao começo, de trás pra frente, sempre me complicando. Isso o retinha, há tempos, irritado comigo. Nada que ele fizesse conseguia me fazer lembrar. Na verdade, sem mim ali, nada podia ser feito por mim, aqui. E, conseqüentemente, nada do que disso dependesse, poderia se manifestar, inclusive o que se referisse a ele, aqui.
Depois, eu soube que por isso ainda teria que voltar para cá, não podia ficar e me apavorei. Foi só então que consegui dizer alguma coisa e foi: Eu não vou voltar lá. Eu já te encontrei pra você. Agora faça a sua parte. Não posso fazer tudo sozinha.
E quando ele saiu, eu também me vi de volta.

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