quarta-feira, 28 de julho de 2010

QUANDO SE QUER

Quando se quer iniciar algo que se iniciou há muito tempo,
onde estará o início?
Se a velha resposta lhe ocorre: pelo começo,
está gravado na mente o equívoco.

Superada a necessidade da forma,
de Júpiter, a ordenação espacial,
antes mesmo que este caia,
quem vem depois já caiu.

Saturno vem depois, mas
antes, já não existe.
Entre a Terra e o céu, Urano,
não há mais separação.
Suprimir o tempo é muito fácil,
marcando as batidas do coração.

Novo fim para novo início,
o que vigora é o aqui e o agora.
Tudo o que quiseres ter,
basta que saibas ver.

Por qualquer lugar se pode então começar.
Ancião dos dias, Saturno, tempo que nos corrompe,
larga a enxada sem perceber que, em sincronia,
a Vênus nasce do mar.

O que se chama amor não é mais que vibração.
Cadência harmônica, ressonante,
que jamais invade, penetrando,
que jamais modifica, transformando.

E quem não sentia, agora sabe
onde é o lugar do coração.
Transformou-se a face do mundo.
Vamos navegar num sistema.
Te convido. Podes vir ou não.
Mas quem pensa que está fora
já entrou na contramão.

Eu cansei de fazer rima
Esse som fica enjoado
Dá prá tentar de outra forma
comunicar o incomunicado?

Parece incrível e é.
A mente está cantando,
ouvindo um som,
entoando.

Tentei pegar um caminho e nada se abria.
Não há vontade nenhuma que se lhe possa vencer.
Devo me entregar,
não resistir, ouvir.

O que me entra pelos ouvidos?
A luz das estrelas.
E o que dizem?
Falam da Voz do Trovão,
luz e som, feixe e onda, salto quântico,
espirais, escalas harmônicas,
um sistema
num sistema
num sistema
num sistema
num sistema
num sistema
num sistema.

De repente, eu entendo o que há na poesia.
Um balançar de ondas sempre contínuas,
a jogar as palavras em cadência sonolenta.
Se eu seguir escutando,
entro em transe.
O que acontece?

Estás sentindo, ao ler,
que eu estava resistindo?
Vaidosamente pensando:
Que bobo ficar rimando!
E vou ficando enjoada
desse constante blablablá.
Devo seguir adiante,
para ver onde vai dar.

Nessa volta do caminho,
em espiral inferior,
ao entrar, eu tive medo e
me amarrei a um fiozinho.

E repito, eu resisto.
Que saco essa ladainha.
Que mente teimosa, eu escuto.
Será que ainda não aprendeu?
Não foi à toa que o Fausto
em versos Goethe escreveu.

Quando se escuta a cadência,
fazendo a mente se calar,
toda a estrutura pesada vai
começar a vibrar.
Um pouco mais,
um pouco mais,
um pouco mais.
Não. Não vai quebrar.
Louco não vais ficar.
Continue.
Continue a entoar.

Pegue qualquer palavra,
entre pelo sistema,
é sempre a mesma meleca
e se não dizes,
refreia.
Interrompes a cadeia.

E quem podia imaginar,
que eu um dia pudesse,
nessa velocidade rimar.
Sinto-me agora,
o perfeito repentista.
E o que há no Nordeste
que cria tantos artistas?
Provavelmente é o Sol,
a lhes bater na moleira
fica mole, relaxada,
pronta prá brincadeira.

É assim que me sinto,
pronta para passar,
atravessar a barreira.
Começo a perceber
o que está lá dentro,
dessa dimensão a romper,
que nos impede de ser
jovens a vida inteira.

Passei.
Agora dá para parar
e comer uma pizza toda,
pois desde ontem não como.

Como primeiro exercício
foi bem,
mas é um vício.
Não se consegue parar
porque é se embriagar.
Embriagar de alegria
e em criança se ver.
Você que nunca aprendeu
a só ser feliz
e não sofrer.

É um poderoso remédio
que em tudo jorra.
Não vai dar esse caminho,
não tem rima,
só tem zorra.

Zorra não é palavra,
nenhuma beleza ela tem.
Mas quem está preocupado
com o tamanho do trem?

Eu não consigo parar.
Eu quero, mas não consigo.
Imagino onde vai dar.
Numa mente tão criança
que não tem nada a consertar.


E então a vibração,
por todo tempo terá,
presente, passado e futuro,
um novo rosto a mostrar.

Nada há que não se cure
prá quem conseguir chegar,
no lugar onde se guarda
o Cálice
e dele tomar.

Não é preciso beber.
Não é preciso sofrer.
Basta que você queira
das suas dores esquecer.

É um novo nascimento.
Um mundo mental que se abre.
Não tem Dioniso nem Baco,
o amor é infantil.
Na mesma cama se encontra
toda a gente do Brasil.

Credo, que exagero.
Não quero me confundir.
Será que o povo está certo?
Deus é mesmo brasileiro?

Não será à toa que estou,
então a escutar,
essa cadência melosa,
o som de sino a dobrar.

Em toda parte estarão
outras mentes como a minha,
nesse momento, a saudar.

Muitos segundos se passam
em branco,
emudeci.
Não perceberam vocês que parei,
briguei,
desci?


Não posso parar de entoar.
Mas posso comunicar
que minha mente pensou
onde estou?
Posso estar sendo usada
para alguma armação?
Não volte atrás,
dizem,
não quebre a arrumação.
Minha mente entrou na rede
da alegria e redenção.
O que é que estou dizendo?
Não acho outra palavra e digo,
Não.

Percebo algumas paradas,
deu prá sentir a marcação.
Estou me sentindo fantoche.
Onde está meu coração?

Sigo ainda questionando,
mesmo sem dar atenção.
O movimento está feito.
No mundo todo se vê.
Uma grande, imensa, onda
a se espalhar bem azul.
O coração da Terra
nasceu no Hemisfério Sul.


1999, LeonoraG.

Nenhum comentário:

Postar um comentário