terça-feira, 27 de julho de 2010

JASON E A ESCADA DE JACÓ





Estou aqui outra vez. Por muito tempo me esqueci deste lugar. Costumava vir aqui todas as noites quando era menino. Eu e Galahaad, o meu carneiro, aquele que insistia em dizer que já havia sido cavaleiro da Távola Redonda do Rei Arthur e que encontrara o Graal, o Santo Cálice no qual se diz que José de Arimatéia recolheu o sangue de Jesus crucificado e também com o qual Jesus teria participado da última ceia e dito aquelas conhecidas palavras: Este é o meu sangue que é dado por vós...fazei isso em memória de mim. E transubstanciou o vinho em sangue ou o sangue em vinho. É uma história que ainda não entendo bem, mas com certeza, há cheiro de mistério no ar. Um bom mistério é aquele que passa relativamente despercebido. Como pequenas portas que levam a grandes lugares, como pontes de arco-íris, como arcas de tesouros invisíveis. Isso. Tesouros invisíveis. Daqueles que para se poder ver é preciso ter “olhos de ver e ouvidos de ouvir”. Devem ser olhos e ouvidos extraterrestres, pois até hoje, não se sabe de ninguém que os tenha encontrado, visto e ouvido. A não ser esse metido carneiro que insiste em dizer que já foi cavaleiro da Távola Redonda do Rei Arthur e que encontrou o Graal, desapareceu do mundo em que vivia e agora vive aqui, comigo. Galahaad. Diz ele que também ficou conhecido como Parcival ou Percival. Não sei se quero acreditar no que ele diz, afinal, o que teria dado certo nessa aventura dele se desapareceu e virou carneiro e não sabe desvirar? Saibam que ele acaba de me destinar um olhar gélido universal e murmurou algo ininteligível como “ignorante” e ficou amuado.
Acho que fiquei meio mal-humorado ao chegar aqui de novo. Talvez tenha me lembrado lá no fundo do inconsciente que ele, Galahaad, sempre me fazia demorar para subir essa longa escada. Eu tinha de esperar por ele e aquelas quatro perninhas curtas reclamando da altura dos degraus. Difícil era quando ele queria parar para descansar e as quatro não cabiam num só degrau. Na época parecia engraçado. Acho que cresci um pouco. É uma pena crescer, vocês sabem. É proporcional à perda de bom humor. Bom humor, mal humor, é um estado de ânimo, de espírito, e creiam, está relacionado ao fígado. Esse órgão processa os humores. Já viram um processador de alimentos? É quase um liquidificador. Faz coisas sólidas virarem suco, líquido e então, o fígado côa. Raiva é para o fígado como pedras para os rins.
Mas eu estava falando da escada e devia subir a escada e parece que não estou com vontade quando na verdade já estou quase chegando ao fim dela e vocês nem perceberam. É a escada de Jacó. É chamada assim por causa do sonho do Jacó, alías, por causa desse livro, a Bíblia, tanta gente tem mania de ficar dando atenção a sonhos, sonhos antigos, sonhos muito antigos, sonhos de outras pessoas, sonhos de goiabada, minha avó fazia sonhos maravilhosos de marmelada, goiabada de marmelo, sítio do pica-pau amarelú, uú, uú, si-tio-do-pi-ca-pau-a-ma-re-lúuuu. Por essa escada as almas subiam aos céus. E é o que estamos fazendo nesse tour. Quando se chega ao alto dessa escada, se está no céu e o céu pode ser visto do jeito que cada um quiser. Só não muda a intenção do lugar. É o lugar da paz, do repouso, do fim, ou do antes do começo. É o lugar das respostas. Pode estar cheio ou vazio. Ser novo ou velho. Aberto ou fechado. E nenhuma dessas coisas que descrevem as coisas faz qualquer diferença. Pode ser céu azul ou vermelho. O céu também pode ser inferno se é lá que você deseja estar, se for esse seu estado de ânimo. Tudo ocupa o mesmo lugar, contrariando o grande físico, como folhas muito finas de um livro. Sobrepostas, mas que se dissolvem, transformando-se umas nas outras. Depende do estado de ânimo, do humor, do fígado. Sei lá porque que eu disse isso. Me fez pensar em fígado de bacalhau. Óleo de fígado de bacalhau. Parece horrível. Até hoje não sei bem para que as mães faziam seus filhos beberem óleo de fígado de bacalhau. Certamente uma técnica altamente eficaz de tortura psicológica, arma ameaçadora, diga-se de passagem, e muito sutil por não conter violência aparente e esconder a dominação na idéia de que “É para o seu bem, meu bem.”
Bom, chegamos. Aqui desse patamar podem se virar e olhar quanto subiram. Devem ter percebido ao longo da subida se havia estrelas, cometas, escuridão, céu azul ou chuvas e trovoadas. Ou qualquer outro tipo de cenário. As combinações são infinitas.
Quero agora apresentar-lhes o Guardião. Cada um há que ter uma entrevistazinha com ele. Talvez assim, de impacto, ou para os menos observadores, não seja perceptível que ele é um reflexo num espelho. Vocês não vêem o espelho. Mas vêem o reflexo do seu próprio e particular guardião. Viram esses dois que acabaram de pular lá para baixo? Com certeza pensaram ter visto demônios quando viram seu próprio reflexo no espelho invisível. E vão sair dizendo que demônios existem, que Satanás isso, que Satanás aquilo. Sabem quando eles vão voltar aqui? Não? Nem eu. Talvez até lá eu já tenha me aposentado desse “bico” de guia turístico. Não que seja ruim, mas sabe como é, não é meu objetivo. Preciso mesmo é “ganhar algum”. Pra financiar a universidade. Quero tornar-me um Mestre. Em quê? Ciências. Pra quê? Bom, a primeira função de um mestre em ciências é estudar, pesquisar e tornar-se mestre e depois, ensinar. Mas eu não quero ensinar, não. Quero mesmo é aprender. Gosto da aventura de buscar o desconhecido, penetrar em túneis escuros que se vão apertando e afunilando e só mostram, lá ao longe, um ponto de luz, um ponto branco sobre fundo preto que, conforme você se espreme pelo túnel e se sente uma fruta ou um legume no processador de alimentos se transformando em suco, vai crescendo e se transformando num fundo branco com um ponto negro no meio. E, se você pensou que ao chegar ao fundo branco não vai querer de jeito nenhum continuar e buscar aquele ponto negro lá ao longe, está redondamente enganado.
Legal essa expressão. Já percebeu? Redondamente enganado. Redondamente. Significa completamente, totalmente, por todos os lados, de todas as formas e maneiras. Redondo, bola, círculo, circunferência. Um algo completo, inteiro, sem embaixo, sem em cima, sem à direita, sem à esquerda, sem à frente, sem às costas. Divaguei legal.
Interessante é que túneis que se estreitam se relacionam com a Grande Pirâmide do Egito, a de Queóps e Queóps significa alguma coisa que agora esqueci. E o ponto branco no fundo preto é Yang e o ponto preto no fundo branco é Ying, uma forma de representação da Imutável Lei do Permanente Movimento ou da Permanente Mutação de tudo o que existe, pertence à também milenar cultura chinesa. Deles, dois nomes antiqüíssimos me ocorrem agora: Lao-Tsé que supostamente elaborou e compilou a sabedoria contida hoje no I Ching, o Livro das Mutações e o Confúcio que também teve sua participação especial. O mais legal nessa história, é o modo de pensar o mundo e a vida e o tempo. Para eles, e deveria ser para nós também, não sei por que desvios históricos da cultura e do pensamento não é, o momento contém em si toda a eternidade. É uma idéia velha no Oriente e, no entanto, no Ocidente, é ultra-moderna, coisa top de linha, alinhada com palavras como holístico, holograma, holocausto. Não. Holocausto, não. Como não? Holo é holo. Engraçado, olhando agora, algo me ocorre. H O L O. Indica um todo, um redondo, um círculo, um completo. Em letras minúsculas é holo. Olho. O “H” é nulo. OLO. Olo. Se repetir, fica olololololololo. Isso é o mesmo que zero-um-zero-um-zero-um. Ou linguagem binária, 01010101010101. Linguagem básica de computador onde a idéia chave é notacional, ou seja, de localização espacial dos dois números mais simples. O que faz a diferença é a casa onde estão colocados o zero e o um. Assim, zero na primeira casa, é zero. Um na primeira casa, é um. Um na segunda casa, à esquerda, e zero na primeira casa, 10, é dois. Um na segunda casa, à esquerda, e um na primeira casa, 11, é três. 100 é quatro, 101 é cinco, 111 é seis. Mas, o que relaciona HOLO, OLHO e BINÁRIOS? Entre holo e olho, dá visão holística, visão do todo, possibilidade de saber o todo pela parte. Mas, onde entram os binários? Se alguém souber, por favor...
Outra coisa interessante sobre isso é o que chamo de Segredo do Empire State. Veja a imagem ali em cima. Deu pra sacar? A escrita dos números binários se faz aumentando casas à esquerda. Se criamos um eixo e os repetimos de forma espelhada, ao contrário, à direita, a imagem é inequívoca. O único edifício igual no mundo, é o Empire State. Alguém acredita que foi por acaso ou intencional? E o nome? Empire. Império. E state, em inglês, não significa só estado mas, também, pôr em palavras. Ou, por que não, pôr em números, já que esses codificam inclusive palavras. Dessa forma, o Empire State pode ser uma conjuração mágica, além de um monumento, que mantém o mundo sob o seu domínio. Alguém duvidaria do poder das palavras com as quais se constrói um edifício? Aliás, o maior do mundo durante um bom tempo.
Alguém aí sabe decodificar, em palavras, o código do Empire State? Meu tio Moa sabia, mas ele morreu. Talvez não haja nada, o que considero mesmo improvável. Pode haver, assim como na Pirâmide, uma maldição que recaia sobre quem violar o segredo do Faraó, o Imperador. Mas, não esqueçamos da Lei dos Reflexos pela qual uma maldição para uns pode ser uma benção para outros. Na Pirâmide, a ambição pelo ouro e a riqueza material era fatal, morte certa. Pode ser o caso do Empire State, mas também pode não ser. Quem quer se arriscar a me contar se há mesmo algo escrito ali? Seria uma experiência similar ao do Champollion, o francês que dizem ter decifrado a Pedra de Roseta, que eu não sei por que tem esse nome. Sei que não pertencia a nenhuma Roseta, uma moça muito linda, de pele branca como a neve e cabelos negros como o ébano. Havia um fragmento de texto nessa pedra, em três línguas, grego, hieróglifos egípcios e a outra acho que era aramaico. (correção de 2010: era demótico, escrita egípcia corrente) O fato é que dessa forma, sabendo grego, Champollion decifrou os hieróglifos. E hieróglifos, alguns definem por garranchos, letra ou comunicação ininteligível, assim como o nosso tão conhecido e fácil alfabeto é ininteligível para os analfabetos. De qualquer forma, também é por alguma razão desconhecida que aqueles sinais e desenhos são chamados de língua dos deuses ou sagrada. Ou vocês acham mesmo que os egípcios só eram um povo estúpido e antiquado ao considerar os gatos como animais sagrados?
Ou esses eram os persas? Houve uma guerra...A guerra dos gatos. Quem sabe, que conte.
Outro mistério é Wall Street. É como se conhece a Bolsa de Valores de Nova York. Mas, wall significa muro e street, rua. Rua do Muro. É um beco-sem-saída, o próprio nome já diz, e sorte terão os últimos, pois serão os primeiros a sair.
Será isso os tais famosos olhos de ver e ouvidos de ouvir?
O que sei é que daqui do alto dessa montanha se pode ver o mundo todo e o tempo todo. Tenho a impressão de que podemos ver o mundo de várias formas. Uma delas é dada quando giramos o mundo, na mesma direção e velocidade. Mas, outras várias, e eu não sei quantas, podem ser vistas dependendo da velocidade e direção em que giramos. Já ouvi dizer que deveríamos ver o mundo como ele realmente é e não da forma como estamos acostumados a vê-lo. Quem souber a resposta, que conte.
Nesta montanha existiu, um dia, uma grande catedral. Dessas em estilo gótico, cheia de geometria simbólica, plena de significado. De paredes escuras, velhas de eternidade, feitas de pedras e cada pedra era como um livro nas prateleiras de uma biblioteca. Talvez assim também sejam os genes contidos em nossas células e, não talvez, mas, são exatamente isso: livros, blocos de informação. Deliciosa brincadeira deve ser essa dos atuais cientistas genéticos misturando informática e biologia, decifrando códigos, abrindo portas, abrindo livros. Mas eu falava da catedral que desapareceu. Estava sempre cheia e eu tinha o meu lugar. E Galahaad, também. Havia as duas alas de bancos e, na da esquerda, todos estavam sempre de mantos com capuzes cobrindo a cabeça, todos amarelos. Mas já haviam sido cinzentos. Creio que havia uma certa hierarquia indicada pelas cores dos mantos, assim como no judô ou karatê o nível alcançado pelo lutador é indicado pela cor das faixas. Era para mim como ir à missa. Ou talvez um pouco mais. Não havia cruz ou alguém crucificado. Havia sim, um sacerdote que brilhava em dourado. Como se ele mesmo fosse de ouro. Ele falava e ensinava e, algumas vezes, se sentou ao meu lado. Seu olhar eu jamais esqueci. Não existe outro igual no mundo. Se recai sobre você, você tem certeza de que ele te ama. Chove sobre a cabeça uma chuva de prata.
E, como onde está o começo ali também está o fim, dou por encerrada esta história.

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