terça-feira, 27 de julho de 2010

APRESENTANDO JASON

Meu nome é Jason. Não perguntem por quê. Minha mãe apenas diz que ouviu esse nome ao pé da orelha. A direita. Mas também podia ser a orelha esquerda, tanto faz, pois ela nunca ouvira falar de Jasão e o Velocino de Ouro. Nem eu. Recentemente percebi que Jason é um acrônimo (palavra formada pelas letras iniciais de outras palavras). Acrônimo de Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro. Sei lá. Sei que cresci agarrado a Galahaad, meu carneiro de estimação, que insistia em dizer que já havia sido cavaleiro da Távola Redonda do Rei Arthur. Ele encontrou o Santo Graal e desapareceu, vindo sair aqui, neste mundo, como carneiro. Acho que isso influenciou muito. Isso de me chamar Jason, porque usando as palavras da minha mãe: Esse menino é muito irrequieto, não pára um instante, vai dali para aqui, até que eu me canse. Ela não sabe como o mundo é interessante e cheio de mistérios a desvendar, pistas que levam a outros mistérios e outras pistas que voltam a resolver aqueles primeiros mistérios e, como cada um é, em si mesmo, enquanto parte, um todo, uma história completa e, por toda parte, pessoas sussurram, se escondem, lutam, procuram e constróem a história da humanidade como se fosse a aventura de uma gigantesca nave espacial através do espaço, do tempo e das dimensões paralelas. Até hoje não sei pra quê tanto mistério, mas sei que onde houver um, lá estarei eu. Eu que me chamo Jason e, como podem ver, sou bastante eloqüente, apesar do meu entusiasmo, coisa da juventude, me fazer perder um pouco as conexões de sentido. Mas não importa. Eu não posso construir um texto pra vocês em linha reta, pois nenhuma aventura que se preze funciona em linha reta. Pra ser aventura de verdade é preciso ter muitos e muitos desvios, muitos perigos, essas coisas, e o bom aventureiro, aquele de sangue, até é capaz de criar alguns desvios. Quando o labirinto é muito simples, ele enrola porque não quer mesmo chegar ao fim. O bom aventureiro não precisa nem mesmo viajar com seus pés, mãos e braços. Eu mesmo jamais viajei mais que um raio de 1000 km. Mas já estive em balões, submarinos, naves espaciais, cidades no céu, templos no fundo do mar, nas pirâmides, no passado, no futuro, no tempo atemporal e, agora, recentemente, no centro do Sol. Já fui milhões de pessoas também, inclusive meu pai e minha mãe. Meu pai, por exemplo, é um escritor que, diante de um teclado, não escreve uma palavra. Dá “branco”. Ele deu uma saidinha, por isso estou aqui e, se um de vocês tiver a infeliz idéia de perguntar por que e de me mandar calar a boca, quero ver se é “muito macho” pra vir me impedir. Pode fechar os olhos, pode tapar os ouvidos, pode berrar, pode prender a respiração até ficar roxo e cair duro, o que seria ótima idéia, faça isso mesmo, mesmo assim, EU NÃO VOU PARAR DE FALAR. Aliás, vocês sabiam que Deus não pára de falar um só instante? É. É esse o segredo que passa de boca em boca desde os mais antigos sacerdotes, hebreus, babilônios, fenícios, egípcios, e etc.etc.etc. e nós não ouvimos mais, tamanha é a confusão de sons no ar, estática, freqüências alternadas, AM, FM, Torre de Babel e Rede Globo. Você é judeu. Não. Você é que é. Você é muçulmano. Não. Você é que é. Briga de crianças. Som de tiros, explosões, gritos de dor, choro de crianças, mais explosões, mais choros, mais explosões, um avião americano pra calar a boca de todo mundo, um piloto voltando para casa: OK Houston, Wall Street está em alta agora? No princípio era o Verbo. Como é que eu sei? Porque ouvi, oras. E tem mais. Tem as malditas lâmpadas fluorescentes. Acho que foram inventadas com o fim maligno de estupidificar funcionários e operários em todo o mundo. É a arma mais letal de todo o sistema dominador, pois qualquer desavisado, e os avisados também, está sujeito a ela, até mesmo na própria cozinha. Elas têm o poder de, pela freqüência, enrijecer estruturas mentais. São usadas para garantir o estrago que as metralhadoras não podem fazer. Aquele som penetra o subconsciente e as pessoas saem de todos os escritórios com um conceito uníssono: QUALIDADE TOTAL, QUALIDADE TOTAL. Mas, o que seria dos mistérios se não houvesse a estupidez?
O pai voltou. Não riam agora, mas o “branco” da mente está estampado em todo o rosto. Apagou os traços fisionômicos. Coitado. Será que ele já viu? Parece que sim. Está encolhido. Não posso dizer aborrecido, pois nada transparece no seu rosto. O que houve, pai?
- Não posso expressar a minha alma.
- Por quê?
- Ela viajou. Eu vacilei, ela saiu batendo as portas e dizendo que ia aprender a ser um homem já que não havia nenhum por aqui... Sabe. Essas coisas de mulher. Não sei onde foi que eu errei. Jamais vou compreender as mulheres.
É, gente. Se amanhã eu perguntar outra vez, a resposta será a mesma. Ele não sai disso. Não entendo as mulheres, não entendo as mulheres. É um trauma, sabem? Ele, um dia, assim mais ou menos com a minha idade, uns 13 anos, vocês sabem, quando os meninos descobrem as mulheres e descobrem que são diferentes das mulheres e descobrem (alguns descobrem, os que conseguiram passar dos cinco anos) que há mulheres que não são suas mães e que, portanto, há mulheres que são mulheres e descobrem que são seres poderosos e complexos para além da sua capacidade de compreensão, alguns, 99% ficam seriamente danificados em sua evolução como homens. Isso, como já disse, são aqueles que conseguiram ver as mulheres, pois uma grande parte dos seres do sexo masculino não ultrapassa a visão da mãe. Pra ser mais claro, têm mães que não saem da frente, mães que não desocupam o beco. O meu pai pertence a essa extensa faixa estatística de 100% - X – Y – Z = ZERO onde X = todos os indivíduos do sexo masculino com trauma dos 5 anos, Y = todos os indivíduos do sexo masculino com trauma dos 13 anos e Z = todos os outros traumas posteriores, o que perfaz o resultado ZERO de compreensão dos homens em relação à complexidade feminina. Essa é a fórmula da minha mãe, claro, para suportar o “branco” do meu pai. Ela sabe o que está dizendo. É uma mulher muito paciente. Me contou, uma vez, um mito grego sobre a mãe da Perséfone, aquela que jantou com o diabo no inferno, que se chamava, como era mesmo, Hera? Não. Essa era a mulher de Zeus. Deméter. É. Deméter procurava sua filha Perséfone que fora raptada por Hades, o deus do inferno. E ao inferno com eles, que o assunto é a Deméter. Enquanto procurava, passou uma temporada na casa de um rico senhor como babá do filho deste. Quis transformá-lo num deus, daqueles do Olimpo e acendeu a pira com o fogo dos deuses. A mãe da criança, vendo aquilo, se apavorou “estupidamente” e acabou com a brincadeira. Na pira, o Pirro virou ex-Pirro. Bom, a minha mãe, que é inteligente, não quis ser estúpida como a mãe-mortal e, quando eu era pequenininho, acendeu uma fogueira lá no fundo do quintal. É, gente, pode rir. Vocês não sabem é que o Prometeu havia roubado o fogo dos deuses e só restava mesmo o fogo dos humanos. Minha mãe me pôs delicadamente acima das chamas e o “fogo no rabo” invadiu minha mente. Alguns monges, lá no oriente, chamam isso de kundalini. Vocês deviam estudar história das religiões. Por quê? Sei lá porque. Acho que porque os homens são aquilo em que acreditam e como eles não sabem em que acreditam também não sabem quem são. Dizem que Deus está dentro de nós e este é um exemplo, vejam muito bem, do perfeito raciocínio aristotélico. Lógica, meus caros leitores. Retornando: se Deus está dentro de mim e eu não acredito em mim, não acredito em Deus e, se Deus não existe porque não acredito em Deus porque não acredito em mim, então Eu não existo. E, ainda assim, mesmo que vocês não acreditem, Eu penso e, até hoje, tem gente que duvida do Descartes. Esse foi aquele filósofo que disse: eu não entendo nada do que todo mundo disse até agora porque entre algumas poucas verdades como “uma mão humana tem 5 dedos”, há um zilhão e meio de baboseiras e “especulações filosóficas inúteis e infundadas” como aquela de dizer que as coordenadas X e Y correspondem a dimensões de espaço e tempo que a mente humana necessita para funcionar e que são os tijolos mentais que mantém as pessoas aprisionadas no labirinto, acreditando que não podem coisas que podem como ouvir o canto dos anjos, ouvir os berros de Deus (Sua Besta! Ele diz freqüentemente), navegar nas ondas das dimensões meta-temporais, ver o transparente e mais uma porção de coisas que as pessoas acreditam que não acreditam e assim, não acreditam em si mesmas, tornando-se inexistentes, juntamente com Deus e tudo desaparece. É o Fim do Mundo. Aliás, já predito pelos profetas e pelo Nostradamus, aquele que é o filho da mãe.
Os filósofos são mesmo uns caras estranhos, assim como o meu pai. São “amigos da sabedoria” ou é como se denominam, mas quando ela se estampa diante dos seus olhos, a chamam de alucinação e coisa do demônio, correm para todos os lados feito gazelas assustadas, queimam bruxas, têm “brancos” e repetem dia após dia: “Eu não entendo as mulheres.” Nos dias atuais, brincam de procurá-la na política e, até eu, que nem filósofo sou, sei que é ali que ela não está. Eles não querem encontrá-la. É. Com certeza, não querem.
Minha mãe diz que a sabedoria é uma mulher e eu já disse que ela, minha mãe, é muito especial? Ela, minha mãe, sabe que não sabe nada, analfabeta, coitada, e conta a lenda do Oráculo de Delfos e o Apolo e o Sócrates e o Platão e enfim, saco, sempre que sai uma discussão entre ela e meu pai e quando ela sabe que não está coberta de razão, (principalmente!), sai da sala batendo os pés e dizendo: Eu não sei de nada mesmo, eu não sei mais nada, faça como você quiser, e bate a porta, na certeza de que ele vai fazer exatamente o que ela quer que ele faça. Isso é sabedoria.
E eu, no meio disso tudo, com treze anos, prestes a ficar traumatizado para o resto da vida, me pergunto por que encontrar a Mulher tem de ser assim tão dramático? Ela te mata, é certo, mas será que não podemos nos entregar a ela prazerosamente e deixar que nos envolva e nos envolva e nos envolva e, assim, talvez, sem perceber, um dia acordemos um Homem?

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